{"id":833,"date":"1999-09-24T11:00:28","date_gmt":"1999-09-24T14:00:28","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacriacionista.org.br\/?p=833"},"modified":"2022-10-27T00:18:14","modified_gmt":"2022-10-27T03:18:14","slug":"os-trilobitas-um-enigma-de-complexidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/scb.org.br\/revistacriacionista\/revistas-conteudo\/folha-61\/os-trilobitas-um-enigma-de-complexidade\/","title":{"rendered":"OS TRILOBITAS: UM ENIGMA DE COMPLEXIDADE"},"content":{"rendered":"<p><em>Este artigo foi o tema da palestra efetuada pelo Dr. Chadwick no III Encontro Nacional de Criacionistas e I Encontro Internacional, realizado em janeiro de 1999 no Instituto Adventista de Ensino, em S.Paulo. Apresentam-se a seguir alguns t\u00f3picos selecionados que podem ilustrar o assunto abordado:<\/em><\/p>\n<h3>Introdu\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>O mundo atual est\u00e1 na crista da onda do aumento de informa\u00e7\u00f5es na \u00e1rea de Biologia Molecular. As informa\u00e7\u00f5es est\u00e3o sendo geradas t\u00e3o rapidamente que \u00e9 imposs\u00edvel que os pesquisadores da \u00e1rea se mantenham atualizados com o fluxo de dados; assim, a interpreta\u00e7\u00e3o fica atrasada em rela\u00e7\u00e3o ao surgimento dos dados. Nossa compreens\u00e3o das complexidades de estrutura e fun\u00e7\u00e3o dentro da c\u00e9lula \u00e9 revolucionada mais e mais quando descobrimos novos detalhes dos processos celulares. Neste contexto, \u00e9 uma trag\u00e9dia particular que n\u00f3s continuemos, cegamente, dogmatizando uma teoria fundamental da biologia que tem mais de 150 anos: a teoria da evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 compreens\u00edvel que Darwin e outros dos primeiros protagonistas da teoria da evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o levassem em conta as dificuldades envolvidas na evolu\u00e7\u00e3o de formas de vida complexas, quando quase nada se conhecia sobre elas. Este era o caso quando Darwin come\u00e7ou a formalizar sua vers\u00e3o de uma teoria para a evolu\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea e n\u00e3o dirigida de formas de vida, na primeira metade do s\u00e9culo 19. O mesmo aconteceu no s\u00e9culo subseq\u00fcente. Mas, durante os \u00faltimos 30 anos, o quadro tem sido mudado pelas ferramentas da sistem\u00e1tica molecular moderna, juntamente com os avan\u00e7os em nossa compreens\u00e3o dos processos celulares e moleculares em uma ampla variedade de organismos. Agora \u00e9 poss\u00edvel fazer compara\u00e7\u00f5es detalhadas dos aspectos moleculares de uma grande variedade de organismos e construir liga\u00e7\u00f5es filogen\u00e9ticas entre estes organismos, baseando-se nestas compara\u00e7\u00f5es. Com estas poderosas ferramentas \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1rio supor que tipos de processos operavam nos organismos extintos, que n\u00e3o est\u00e3o mais \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para serem estudados. Muito da arquitetura molecular de tais formas pode ser reconstru\u00eddo a partir de dados facilmente dispon\u00edveis para n\u00f3s atualmente. As conclus\u00f5es de tal trabalho s\u00e3o muito surpreendentes e compreendem o assunto desta apresenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os trilobitas s\u00e3o membros extintos do filo Arthropoda, ao qual pertencem os insetos modernos. Estas criaturas deixaram um registro f\u00f3ssil longo e detalhado nas rochas, come\u00e7ando no in\u00edcio do Cambriano e terminando no Permiano. Os trilobitas eram formas requintadas, que possu\u00edam corpos segmentados elaborados, com sistema nervoso cefalizado, ap\u00eandices tor\u00e1cicos e abdominais articulados, antenas e olhos compostos. Devido ao fato de os trilobitas serem formas extintas, sabemos muito pouco sobre seus h\u00e1bitos de vida, exceto pelo que podemos deduzir pela sua associa\u00e7\u00e3o com outras formas que t\u00eam representantes vivos, e a partir tamb\u00e9m de reconstru\u00e7\u00f5es cuidadosas dos ambientes deposicionais nos quais eles s\u00e3o encontrados. Entretanto, a teoria da evolu\u00e7\u00e3o fornece-nos um mecanismo para reconstruir, em detalhes inimagin\u00e1veis, a fisiologia e a biologia molecular destes primeiros tipos de metazo\u00e1rios, amplamente distribu\u00eddos.<\/p>\n<p>Esta reconstru\u00e7\u00e3o tem um grande significado por nos fornecer um quadro da riqueza e complexidade das primeiras criaturas metazo\u00e1rias. Esta reconstru\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m contribuir\u00e1 substancialmente para nossa compreens\u00e3o dos processos que teriam que ter precedido o aparecimento destas surpreendentes criaturas que, em quase todos os lugares, marcam os limites entre rochas essencialmente desprovidas de vida metazo\u00e1ria e aquelas rochas que cont\u00eam evid\u00eancia abundante de vida metazo\u00e1ria. Antes de come\u00e7armos a explorar a natureza dos trilobitas, lancemos algumas bases fundamentais para as premissas que exploraremos em nossa reconstru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim, neste artigo eu pretendo:<\/p>\n<p>1. Demonstrar, usando a suposi\u00e7\u00e3o fundamental da teoria da evolu\u00e7\u00e3o, que podemos conhecer, em detalhes requintados, a biologia molecular do trilobita;<\/p>\n<p>Mostrar que os trilobitas s\u00e3o t\u00e3o complexos, a n\u00edvel molecular, como qualquer forma moderna e, na aus\u00eancia de qualquer evid\u00eancia f\u00edsica da evolu\u00e7\u00e3o de sistemas complexos, ou do aumento no conte\u00fado informacional dos sistemas complexos existentes, a cren\u00e7a na teoria da evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de pura f\u00e9, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancia f\u00edsica para o aumento no conte\u00fado informacional de qualquer sistema complexo. Outra teoria que explica as origens \u2013 a Cria\u00e7\u00e3o Especial \u2013 tem precedentes cient\u00edficos, porque ela realmente oferece uma explica\u00e7\u00e3o para as origens que se harmoniza com os dados dispon\u00edveis.<\/p>\n<h3>Origem das c\u00e9lulas<\/h3>\n<p>Todos os seres vivos, incluindo os trilobitas, s\u00e3o compostos por c\u00e9lulas. A teoria da evolu\u00e7\u00e3o prop\u00f5e que estas c\u00e9lulas surgiram num passado distante, a partir de um ou mais sistemas vivos complexos, derivados por processos naturais de materiais presentes na &#8220;terra pr\u00e9-bi\u00f3tica&#8221;. Estas proto-c\u00e9lulas primitivas teriam se estabelecido e, durante vastos per\u00edodos de tempo, desenvolvido sistemas complexos capazes de duplica\u00e7\u00e3o eficiente dos componentes necess\u00e1rios para a vida. Durante este per\u00edodo, os detalhes do c\u00f3digo gen\u00e9tico teriam sido trabalhados, os sistemas de enzimas necess\u00e1rios para a duplica\u00e7\u00e3o do DNA aperfei\u00e7oados, as enzimas necess\u00e1rias para produzir RNA\u2013mensageiros funcionais desenvolvidas, e a maquinaria para produzir prote\u00ednas a partir da informa\u00e7\u00e3o contida no RNA\u2013mensageiro teria sido estabelecida. Uma \u00e1rea de especula\u00e7\u00e3o atual \u00e9 se este sistema moderno foi o primeiro a se desenvolver, ou se um sistema mais simples, envolvendo apenas mol\u00e9culas de RNA capazes de auto-duplica\u00e7\u00e3o e atividade catal\u00edtica, o precedeu. Esta \u00faltima sugest\u00e3o apareceu, em primeiro lugar, para oferecer uma solu\u00e7\u00e3o para o dilema criado pela necessidade do aparecimento simult\u00e2neo de prote\u00ednas e DNA para a codifica\u00e7\u00e3o para aquelas mesmas prote\u00ednas. Mas atualmente existe pouca evid\u00eancia de que estas mol\u00e9culas de RNA catal\u00edticas ou &#8220;ribozimas&#8221; tenham um papel altamente significativo nas c\u00e9lulas modernas, e permanece enigm\u00e1tico o problema da mudan\u00e7a de um sistema de ribozimas para um sistema de prote\u00ednas governadas por DNA. Apesar de a origem da vida n\u00e3o ser o assunto deste trabalho, vale a pena observar que este cen\u00e1rio, ou qualquer outro que explique a origem espont\u00e2nea de uma c\u00e9lula viva, pertence ao campo da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. De qualquer forma, \u00e9 muito evidente que, antes do in\u00edcio do Cambriano, os detalhes das c\u00e9lulas eucari\u00f3ticas modernas, das quais os trilobitas eram compostos, estavam totalmente conclu\u00eddos, como veremos.<\/p>\n<h3>Revelando o passado<\/h3>\n<p>O que podemos saber sobre a biologia molecular e celular, e a fisiologia do trilobita? A premissa fundamental desta apresenta\u00e7\u00e3o \u00e9 que podemos determinar, em detalhes precisos e requintados, os mecanismos que operavam nas c\u00e9lulas e tecidos dos trilobitas. Esta premissa est\u00e1 baseada em uma s\u00edntese fundamental da teoria da evolu\u00e7\u00e3o: a de que caracter\u00edsticas compartilhadas em comum por organismos distintos, a n\u00edvel molecular ou celular, s\u00e3o devidos a ambos terem uma ancestralidade evolutiva comum. Esta suposi\u00e7\u00e3o \u00e9 amplamente aceita sob o prisma evolucionista, e envolve toda a teoria da evolu\u00e7\u00e3o, sendo a base de toda a taxonomia evolutiva moderna. Apesar de algumas similaridades anat\u00f4micas serem consideradas exemplos de evolu\u00e7\u00e3o convergente (derivadas independentemente e n\u00e3o relacionadas geneticamente), tais como as asas de insetos, r\u00e9pteis, aves e mam\u00edferos, tais casos s\u00e3o facilmente identific\u00e1veis, e as similaridades que existem a n\u00edvel celular e molecular s\u00e3o geralmente consideradas como indicadores de ancestralidade comum. Assim, as caracter\u00edsticas moleculares compartilhadas pelas ervilhas e pelo homem requerem que tenha havido, em um passado long\u00ednquo, um ancestral comum a ambos, que possu\u00edsse estas caracter\u00edsticas comuns. (\u00e1rvore filogen\u00e9tica, segundo Wray et al.). Qualquer outra conclus\u00e3o requereria que eventos altamente improv\u00e1veis tivessem acontecido repetidamente, com exata precis\u00e3o, e isto falsificaria a suposi\u00e7\u00e3o fundamental da sistem\u00e1tica molecular e tributaria a credulidade al\u00e9m dos limites. Conseq\u00fcentemente, qualquer caracter\u00edstica complexa compartilhada pelos artr\u00f3podes modernos e pelo homem, ou pelos artr\u00f3podes e pela ervilha, deveria ter estado presente no ancestral comum a ambas as formas. Assim, a presen\u00e7a de caracter\u00edsticas de biologia celular ou molecular em comum, entre os artr\u00f3podes modernos e o homem ou outras formas, requer que estas caracter\u00edsticas sejam compartilhadas pelo ancestral comum de artr\u00f3podes e do homem. Como os trilobitas eram artr\u00f3podes, eles tamb\u00e9m devem ter apresentado estas caracter\u00edsticas e ent\u00e3o podemos, confiantemente, atribuir estas caracter\u00edsticas complexas aos primeiros metazo\u00e1rios.<\/p>\n<p>Dentre um grande n\u00famero poss\u00edvel, vamos analisar alguns sistemas biol\u00f3gicos moleculares complexos. Ser\u00e1 necess\u00e1rio, naturalmente, incluir algum material de natureza bastante t\u00e9cnica, a fim de demonstrar o n\u00edvel de complexidade presente nas c\u00e9lulas. Isto \u00e9 inevit\u00e1vel, pois esta base \u00e9 necess\u00e1ria para desenvolver os pontos importantes. Estes detalhes s\u00e3o bem conhecidos pelos bi\u00f3logos moleculares, mas n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ser um bi\u00f3logo molecular, nem entender os detalhes da complexidade, para entender o significado dos argumentos. Vou come\u00e7ar com a considera\u00e7\u00e3o de alguns dos processos b\u00e1sicos compartilhados pelas c\u00e9lulas dos metazo\u00e1rios. Ent\u00e3o iremos examinar algumas das complexas caracter\u00edsticas dos organismos metazo\u00e1rios, incluindo os trilobitas.<\/p>\n<p>T\u00f3picos abordados \u00e0 guisa de introdu\u00e7\u00e3o ao assunto espec\u00edfico do artigo<\/p>\n<p>O que \u00e9 necess\u00e1rio para a divis\u00e3o celular?<\/p>\n<p>Transcri\u00e7\u00e3o: do DNA ao m-RNA<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: do m-RNA \u00e0 prote\u00edna<\/p>\n<p>Forma\u00e7\u00e3o de uma prote\u00edna ativa<\/p>\n<p>O cromossomo eucariota<\/p>\n<p>A sinapse<\/p>\n<h3>A biologia do desenvolvimento dos trilobitas<\/h3>\n<p>O que podemos dizer sobre as vias metab\u00f3licas complicadas pelas quais um simples \u00f3vulo, no ov\u00e1rio de uma m\u00e3e trilobita, se transforma num descendente vi\u00e1vel? Muito mais do que voc\u00ea poderia imaginar, gra\u00e7as aos avan\u00e7os recentes em nossa compreens\u00e3o da biologia molecular do desenvolvimento. Aqui eu s\u00f3 poderei dar um esbo\u00e7o dos detalhes. Deixe-me rapidamente contar um pouco sobre como um inseto \u00e9 formado. Aqui n\u00f3s vamos discutir sobre a mosca das frutas, Drosophila, que \u00e9 um inseto que sofre metamorfose. Como estes insetos s\u00e3o bastante pequenos, n\u00e3o seria pr\u00e1tica a eclos\u00e3o de um descendente com asas, completamente funcionais, a partir de um \u00f3vulo fertilizado. A estrat\u00e9gia de muitos insetos \u00e9 colocar um ovo, o qual &#8220;eclode&#8221; originando um ovo maior, chamado de larva. A larva \u00e9 apenas um saco para acumular material alimentar, na prepara\u00e7\u00e3o para a produ\u00e7\u00e3o da forma adulta. Entretanto, nos rec\u00f4nditos mais profundos de cada larva, est\u00e3o as sementes embrion\u00e1rias de um organismo adulto. Denominados &#8220;discos imagin\u00e1rios&#8221;, estes tecidos especializados permanecem dormentes at\u00e9 a forma\u00e7\u00e3o da pupa. Neste momento a larva se dissolve e os discos imagin\u00e1rios se transformam nas v\u00e1rias partes do adulto. Este \u00e9 um processo surpreendente por si s\u00f3, mas a seq\u00fc\u00eancia de eventos que levam \u00e0 forma\u00e7\u00e3o dos discos imagin\u00e1rios oferece uma vis\u00e3o sem precedentes do processo de desenvolvimento, que nos ser\u00e1 de grande interesse em nossa considera\u00e7\u00e3o sobre o trilobita.<\/p>\n<p>Enquanto o ovo ainda est\u00e1 dentro do ov\u00e1rio, s\u00e3o estabelecidos gradientes espec\u00edficos de produtos g\u00eanicos reguladores dentro do ovo. Estes m-RNAs ou prote\u00ednas se originam do pr\u00f3prio n\u00facleo do ovo ou de c\u00e9lulas maternas acess\u00f3rias que rodeiam o ovo no ov\u00e1rio. Ap\u00f3s a fertiliza\u00e7\u00e3o, s\u00e3o ativadas s\u00e9ries adicionais de genes, produzindo prote\u00ednas reguladoras adicionais, em regi\u00f5es espec\u00edficas do ovo fertilizado. Esta distribui\u00e7\u00e3o assim\u00e9trica de prote\u00ednas reguladoras resulta em cada c\u00e9lula ter uma combina\u00e7\u00e3o \u00fanica de reguladores. O balan\u00e7o desses genes reguladores determina quais genes s\u00e3o ativados e quais s\u00e3o suprimidos em cada c\u00e9lula, e esta assimetria, por sua vez, determina cabe\u00e7a e cauda, e diferencia\u00e7\u00e3o ao longo dos eixos do corpo resultantes.<\/p>\n<p>Este sistema de desenvolvimento \u00e9 fantasticamente complexo. Estudos gen\u00e9ticos em Drosophila revelaram uma classe de genes do desenvolvimento que, quando sofriam muta\u00e7\u00e3o, resultavam n\u00e3o apenas em uma \u00fanica altera\u00e7\u00e3o, tal como a cor do olho, mas produziam efeitos em massa que eram letais, ou resultavam em mudan\u00e7as monstruosas na forma do corpo. Por exemplo, uma \u00fanica muta\u00e7\u00e3o g\u00eanica em um dos genes reguladores resultou no crescimento de pernas no local onde se encontram normalmente as antenas, ou na forma\u00e7\u00e3o de um segmento extra no corpo, com um par extra de asas. Vastas redes reguladoras ligam cada um desses genes do desenvolvimento a centenas de outros genes. Para seu assombro, investigadores descobriram que os genes que estavam controlando o desenvolvimento das moscas das frutas e os genes que controlam o desenvolvimento dos vertebrados, incluindo camundongos e homens, tinham estrutura muito semelhante e freq\u00fcentemente controlavam partes an\u00e1logas dos embri\u00f5es das moscas e do homem. E assim, estas seq\u00fc\u00eancias de genes do desenvolvimento, presentes nas moscas e no homem, tamb\u00e9m estavam presentes nos trilobitas.<\/p>\n<p>Estudos subseq\u00fcentes revelaram a localiza\u00e7\u00e3o de alguns destes genes no cromossomo. Quando se identificou e mapeou a s\u00e9rie principal de genes reguladores que determina a polaridade do embri\u00e3o de Drosophila (genes HOM-C), os investigadores descobriram um fato surpreendente, um fato que eles n\u00e3o esperavam e com o qual n\u00e3o estavam preparados para lidar, quando o encontraram: os genes que controlavam o desenvolvimento do eixo do embri\u00e3o, da cabe\u00e7a \u00e0 cauda, estavam localizados no cromossomo na mesma ordem que a das por\u00e7\u00f5es da anatomia do organismo cujo desenvolvimento eles controlavam (colinearidade). Isto \u00e9 inesperado por muitas raz\u00f5es, sendo uma delas a improbabilidade de tal arranjo ocorrer na aus\u00eancia de um projetista. Alguns anos atr\u00e1s, Murry Eden, um matem\u00e1tico do M.I.T., demonstrou a improbabilidade de se obterem genes com uma seq\u00fc\u00eancia espec\u00edfica no cromossomo. Parece n\u00e3o haver nenhuma raz\u00e3o funcional para estes genes estarem t\u00e3o organizados, apesar de que este quadro pode mudar. Mas este n\u00e3o era o fato mais assombroso. Estudos subseq\u00fcentes em vertebrados (principalmente nos camundongos, mas tamb\u00e9m no homem) mostraram que tipos semelhantes de prote\u00ednas reguladoras eram respons\u00e1veis pelo ordenamento da organiza\u00e7\u00e3o da cabe\u00e7a at\u00e9 a cauda do corpo dos vertebrados, incluindo o homem. E estes genes (chamados de genes Hox), que eram muito semelhantes aos genes equivalentes na Drosophila (em alguns genes home\u00f3ticos, a similaridade entre Drosophila e o homem \u00e9 de 98%) est\u00e3o localizados no cromossomo na mesma ordem que a das moscas das frutas! Eles devem ter tido uma origem comum! E eles deviam estar presentes no trilobita, a primeira forma metazo\u00e1ria do Cambriano. Assim, nas primeiras formas, n\u00e3o s\u00f3 estavam presentes todas as complexidades da c\u00e9lula eucariota, mas tamb\u00e9m estava operando toda a complexidade insond\u00e1vel do sistema de desenvolvimento, envolvendo a intera\u00e7\u00e3o de milhares de genes que todas as formas cefalizadas parecem ter em comum.<\/p>\n<h3>O olho do trilobita<\/h3>\n<p>O olho tem sido objeto de assombro durante toda a hist\u00f3ria registrada, devido \u00e0s suas fun\u00e7\u00f5es cr\u00edticas. Certamente a exist\u00eancia de olhos compostos e completamente funcionais nos primeiros metazo\u00e1rios tem feito com que, de quando em quando, evolucionistas pensantes questionem seriamente sobre a base de sua origem. No caso dos trilobitas, n\u00e3o s\u00f3 as primeiras formas a aparecerem estavam equipadas com \u00f3rg\u00e3os visuais altamente organizados, mas algumas das propriedades recentemente descobertas dos olhos dos trilobitas representam uma &#8220;proeza em otimiza\u00e7\u00e3o de fun\u00e7\u00e3o&#8221;. Os olhos dos trilobitas, a partir do que podemos concluir pelo estudo das formas f\u00f3sseis, t\u00eam muito em comum com os olhos dos insetos modernos. Certos trilobitas de meados do Paleoz\u00f3ico t\u00eam um sistema \u00f3tico \u00fanico, desconhecido em qualquer outra criatura. O f\u00edsico nuclear Levi-Setti (Diretor do Fermilab, da Universidade de Chicago), que \u00e9 aficcionado por trilobitas, afirma com franqueza impertub\u00e1vel:<\/p>\n<p>&#8220;E uma descoberta final \u2013 a de que a interface refratora entre os dois elementos das lentes do olho do trilobita foi projetada [\u00eanfase adicionada] de acordo com as constru\u00e7\u00f5es \u00f3ticas elaboradas por Descartes e Huygens em meados do s\u00e9culo dezessete \u2013 toca as raias da pura fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica&#8221;.<\/p>\n<p>Os eixos dos omat\u00eddeos individuais foram constru\u00eddos a partir de cristais \u00fanicos de calcita, sendo o eixo \u00f3tico do cristal coincidente com o eixo \u00f3tico do elemento do olho. Isso representa um problema extraordin\u00e1rio para o trilobita, j\u00e1 que uma simples lente esf\u00e9rica e grossa de calcita n\u00e3o poderia decompor a luz em uma imagem. O elemento \u00f3tico do trilobita \u00e9 uma lente composta, constitu\u00edda por duas lentes com diferentes \u00edndices de refra\u00e7\u00e3o, unidas em uma superf\u00edcie de Huygens. Para que tal olho focalize a luz corretamente nos receptores, ele teria que ter exatamente esta forma de lente. Os princ\u00edpios \u00f3ticos requeridos foram elaborados pela primeira vez por Huygens no s\u00e9culo dezessete, mas as lentes dos trilobitas funcionavam perfeitamente, usando estes princ\u00edpios \u00f3ticos, muito antes desse matem\u00e1tico holand\u00eas entender como. Os primeiros trilobitas n\u00e3o tinham estas lentes sofisticadas, mas os seus olhos eram, aparentemente, mais semelhantes aos dos insetos modernos. Por\u00e9m, n\u00e3o se conhecem formas intermedi\u00e1rias no registro f\u00f3ssil. Quando a lente de Huygens apareceu pela primeira vez, ela era completamente funcional.<\/p>\n<p>O mecanismo regulador do desenvolvimento do olho deve realmente ser complexo. Estima-se que 2.500 a 5.000 genes est\u00e3o envolvidos no processo de desenvolvimento. Alguns dos detalhes do desenvolvimento est\u00e3o sendo solucionados em Drosophila, onde alguns dos genes de liga\u00e7\u00e3o mestres s\u00e3o conhecidos. Cada faceta individual ou omat\u00eddeo de um olho composto, tal como o da Drosophila, consiste de um grupo de oito c\u00e9lulas, sete das quais se desenvolver\u00e3o em receptores de luz. Descobriu-se que uma dessas c\u00e9lulas retinais, chamada R7, era respons\u00e1vel pela detec\u00e7\u00e3o da luz ultra-violeta. A via do desenvolvimento da R7 tem sido assunto de uma intensa investiga\u00e7\u00e3o por muitos anos. Ela revelou uma cascata de intera\u00e7\u00f5es que parece representar a maioria das vias de liga\u00e7\u00e3o externa das c\u00e9lulas. A membrana da c\u00e9lula R7 cont\u00e9m uma prote\u00edna especial, o receptor da tirosina quinase (RTK). Esta prote\u00edna possui um s\u00edtio receptor extracelular, uma regi\u00e3o transmembrana e uma regi\u00e3o enzim\u00e1tica intracelular. Quando algum ligante externo se liga ao receptor (neste caso \u00e9 o ligante de membrana da oitava c\u00e9lula), a mol\u00e9cula se une com outro RTK, formando um d\u00edmero. As duas mol\u00e9culas ent\u00e3o se empenham na fosforila\u00e7\u00e3o rec\u00edproca de tr\u00eas res\u00edduos espec\u00edficos de tirosina, cada um na outra mol\u00e9cula. Assim fosforilada, a regi\u00e3o citos\u00f3lica pode se ligar a uma prote\u00edna citoplasm\u00e1tica espec\u00edfica (GRB2) que reconhece o RTK fosforilado. Quando a GRB2 se liga ao RTK, este pode ent\u00e3o se ligar a uma terceira prote\u00edna, Sos. O complexo Sos faz com que a prote\u00edna associada \u00e0 membrana, Ras, perca GDP, que \u00e9 ent\u00e3o substitu\u00eddo por GTP. Nesta condi\u00e7\u00e3o, a prote\u00edna Ras se liga \u00e0 prote\u00edna chamada Raf, uma quinase da treonina\/serina. Quando ligada ao Ras ativado, Raf \u00e9 capaz de ligar e fosforilar outra quinase espec\u00edfica da tirosina\/treonina, a MEK, ativando-a. MEK por sua vez ativa uma enzima citoplasm\u00e1tica, a MAP quinase, atrav\u00e9s da fosforila\u00e7\u00e3o dos res\u00edduos de tirosina e treonina nesta enzima. A MAP quinase est\u00e1 aparentemente envolvida na fosforila\u00e7\u00e3o das prote\u00ednas de liga\u00e7\u00e3o ao DNA e outras prote\u00ednas celulares chave, que resultam na mudan\u00e7a da dire\u00e7\u00e3o da diferencia\u00e7\u00e3o celular, de tal modo que a c\u00e9lula agora se transformar\u00e1 numa R7 normal. O que \u00e9 especialmente digno de nota nesta cascata, \u00e9 que ela \u00e9 encontrada em todas as c\u00e9lulas de organismos eucariotas multicelulares e, com pequenas altera\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m nos eucariotas unicelulares (leveduras e protozo\u00e1rios).<\/p>\n<p>Recentemente, como resultado da manipula\u00e7\u00e3o de um gene mestre do desenvolvimento, o &#8220;eyeless&#8221;, produziram-se moscas com olhos em v\u00e1rias partes do corpo, incluindo as asas, pernas e extremidades das antenas, como resultado da ativa\u00e7\u00e3o do gene em posi\u00e7\u00f5es anormais. Um gene mestre semelhante foi encontrado nos vertebrados, que possuem olhos completamente diferentes dos insetos. O gene do homem, camundongo e outros animais \u00e9 quase id\u00eantico ao da Drosophila. Quando o gene apropriado de um cromossomo do camundongo (e possivelmente tamb\u00e9m de um ser humano) foi inserido em uma mosca, ele produziu olhos de mosca em todos os lugares do corpo em que foi ativado. Os dois genes s\u00e3o suficientemente semelhantes, de modo que o gene de mam\u00edfero leva \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de um olho de mosca. Nossa linha de racioc\u00ednio nos leva a concluir que o sistema de genes que leva ao desenvolvimento do olho estava presente e funcionando nos primeiros trilobitas. H\u00e1 um n\u00famero cada vez maior de vias metab\u00f3licas do desenvolvimento que s\u00e3o &#8220;conservadas evolutivamente&#8221;, um eufemismo para &#8220;embara\u00e7osamente semelhantes&#8221;, em um largo espectro de organismos, e a maioria delas estaria presente nos trilobitas. Por exemplo, os genes respons\u00e1veis pela organiza\u00e7\u00e3o da dorso-ventralidade no homem foram descobertos, utilizando os genes de Drosophila como sonda molecular. Os genes respons\u00e1veis pela organiza\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro humano na embriog\u00eanese foram descobertos utilizando os genes de Drosophila como sonda. O olho, a parte posterior do c\u00e9rebro e a medula espinhal, o &#8220;pathing&#8221; dos ax\u00f4nios, a diferencia\u00e7\u00e3o dos m\u00fasculos do esqueleto e do cora\u00e7\u00e3o, a resposta fotoperi\u00f3dica, a escultura dos tecidos envolvendo a morte de c\u00e9lulas selecionadas (apoptose), a modelagem embrion\u00e1ria, a sinaliza\u00e7\u00e3o celular e milhares de outros exemplos de processos &#8220;conservados evolutivamente&#8221; poderiam ser citados. At\u00e9 a forma\u00e7\u00e3o dos membros \u00e9 dirigida, nas moscas das frutas, por um gene (Hedgehog), cujo gene hom\u00f3logo nos vertebrados (Hedgehog S\u00f4nico) comanda a forma\u00e7\u00e3o dos membros em todos os vertebrados conhecidos, incluindo o homem, camundongo, galinha e at\u00e9 o peixe! O elaborado mecanismo respons\u00e1vel precede claramente qualquer organismo com membros conhecido. De onde veio toda essa informa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<h4>O problema da complexidade dos primeiros metazo\u00e1rios<\/h4>\n<p>Onde e quando ocorreu a evolu\u00e7\u00e3o???<\/p>\n<h3>CONCLUS\u00c3O<\/h3>\n<p>Fizemos uma considera\u00e7\u00e3o cuidadosa de uma pequena amostragem dos milhares de exemplos de complexidades compartilhadas pelas formas modernas, que poderiam ter sido utilizados. Vimos que, a partir de uma cuidadosa considera\u00e7\u00e3o das evid\u00eancias, a teoria da evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o explica a origem dos sistemas ricos em informa\u00e7\u00e3o dos organismos biol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>Vimos que os trilobitas, os primeiros f\u00f3sseis abundantes e bem representados de metazo\u00e1rios, apresentavam uma complexidade inimagin\u00e1vel em cada detalhe, com olhos compostos, com ap\u00eandices abdominais e br\u00e2nquias, com pernas e antenas e com formas esculturais intrincadas e complexas. Eles possu\u00edam sistemas musculares e nervosos totalmente funcionais. Os seus olhos se desenvolviam por processos n\u00e3o s\u00f3 semelhantes aos dos outros artr\u00f3podes, mas semelhantes aos dos vertebrados, incluindo o homem. O sistema complexo de desenvolvimento das formas cefalizadas j\u00e1 estava presente e funcionando. Milhares de outras complexidades de biologia molecular, compartilhadas pelas formas modernas, j\u00e1 estavam operando. De onde vieram estas complexidades? N\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancia da exist\u00eancia de forma anterior alguma da qual elas poderiam ter derivado. Al\u00e9m disso, n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancia da exist\u00eancia de algum mecanismo, nos sistemas biol\u00f3gicos, que adicione informa\u00e7\u00f5es a sistemas complexos (Spetnar, 1998). Argumentar que eles vieram de formas pr\u00e9-cambrianas, que n\u00e3o se preservaram porque n\u00e3o tinham partes duras, \u00e9 argumentar novamente com base na AUS\u00caNCIA DE EVID\u00caNCIA. A aus\u00eancia de evid\u00eancia, em ci\u00eancia, deve ser interpretada como evid\u00eancia de aus\u00eancia. N\u00e3o existe seq\u00fc\u00eancia evolutiva pr\u00e9-cambriana porque n\u00e3o houve evolu\u00e7\u00e3o pr\u00e9-cambriana. A evolu\u00e7\u00e3o como uma explica\u00e7\u00e3o para a exist\u00eancia de sistemas viventes complexos \u00e9 um ponto de vista de natureza religiosa, sustentado por aqueles que desejam que o mundo n\u00e3o tenha nenhum Originador. Os trilobitas e todas as outras formas apareceram em cena como organismos completamente formados e completamente competentes. J\u00e1 passou da hora de substituir a teoria da evolu\u00e7\u00e3o org\u00e2nica por uma teoria que possa explicar os dados. A \u00fanica teoria que pode explicar a origem da informa\u00e7\u00e3o \u00e9 a teoria da Cria\u00e7\u00e3o Especial. Eu n\u00e3o pe\u00e7o desculpas por escolher colocar a minha f\u00e9 na exist\u00eancia de um Mestre Projetista, uma posi\u00e7\u00e3o que \u00e9 consistente com a mais clara interpreta\u00e7\u00e3o da evid\u00eancia dispon\u00edvel no registro f\u00f3ssil, consistente com a mais clara leitura do livro de G\u00eanesis e uma f\u00e9 que \u00e9 positiva, enaltecedora e cheia de esperan\u00e7a para o futuro.<\/p>\n<h4>Resumo<\/h4>\n<p>Meu objetivo nesta apresenta\u00e7\u00e3o foi explorar o impacto que as descobertas da biologia molecular moderna est\u00e3o tendo em nossa compreens\u00e3o da hist\u00f3ria da vida na Terra. Procurei demonstrar, usando uma suposi\u00e7\u00e3o fundamental da teoria da evolu\u00e7\u00e3o, que podemos conhecer, em detalhes requintados, a biologia molecular das primeiras formas de vida metazo\u00e1rias, das quais temos um registro consistente \u2013 o trilobita. Reconstruimos a biologia molecular do trilobita, para construirmos um exemplo da exist\u00eancia, no primeiro metazo\u00e1rio f\u00f3ssil, de todas as principais inova\u00e7\u00f5es representadas pelo espectro da vida na Terra atual. Na aus\u00eancia de evid\u00eancia f\u00edsica da evolu\u00e7\u00e3o de sistemas complexos e na aus\u00eancia de evid\u00eancia de qualquer aumento no conte\u00fado informacional dos sistemas complexos existentes, a cren\u00e7a na teoria da evolu\u00e7\u00e3o org\u00e2nica permanece como uma quest\u00e3o de pura f\u00e9. Na falta de evid\u00eancia f\u00edsica para o aumento em conte\u00fado informacional de qualquer sistema complexo, outra teoria que explica as origens \u2013 Cria\u00e7\u00e3o Especial \u2013 tem preced\u00eancia cient\u00edfica, pois ela realmente oferece uma explica\u00e7\u00e3o para as origens que se adequa aos dados.<\/p>\n<p><strong>A tradu\u00e7\u00e3o deste artigo foi feita pela Professora Dra. M\u00e1rcia Oliveira de Paula<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este artigo foi o tema da palestra efetuada pelo Dr. Chadwick no III Encontro Nacional de Criacionistas e I Encontro Internacional, realizado em janeiro de 1999 no Instituto Adventista de Ensino, em S.Paulo. 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