{"id":667,"date":"1994-06-22T00:40:39","date_gmt":"1994-06-22T03:40:39","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacriacionista.org.br\/?p=667"},"modified":"2022-10-27T00:08:53","modified_gmt":"2022-10-27T03:08:53","slug":"no-principio-como-interpretar-genesis-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/scb.org.br\/revistacriacionista\/artigos\/no-principio-como-interpretar-genesis-1\/","title":{"rendered":"No Princ\u00edpio: Como Interpretar G\u00eanesis 1"},"content":{"rendered":"<p><i>\u201cNo princ\u00edpio criou Deus os c\u00e9us e a Terra.\u201d G\u00eanesis 1:1.<\/i><\/p>\n<p>Com tal beleza, majestade e simplicidade come\u00e7a o relato da Cria\u00e7\u00e3o em G\u00eanesis. Por\u00e9m, uma an\u00e1lise do cap\u00edtulo 1 de G\u00eanesis n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples e direta como uma leitura casual do texto b\u00edblico poderia sugerir. A interpreta\u00e7\u00e3o moderna da cosmogonia (estudo das origens) b\u00edblica em G\u00eanesis 1 \u00e9 extremamente complicada, dividida entre a interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o-literal e a literal. Vamos brevemente descrever sete destas interpreta\u00e7\u00f5es e avaliar cada uma \u00e0 luz dos dados b\u00edblicos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-668 aligncenter\" src=\"https:\/\/revistacriacionista.org.br\/wp-content\/uploads\/sites\/11\/2019\/10\/7dias-1.jpg\" alt=\"\" width=\"490\" height=\"100\" srcset=\"https:\/\/scb.org.br\/revistacriacionista\/wp-content\/uploads\/sites\/11\/2019\/10\/7dias-1.jpg 490w, https:\/\/scb.org.br\/revistacriacionista\/wp-content\/uploads\/sites\/11\/2019\/10\/7dias-1-300x61.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 490px) 100vw, 490px\" \/><\/p>\n<p><b>Interpreta\u00e7\u00f5es principais de G\u00eanesis 1<\/b><\/p>\n<p>Estudiosos que apoiam uma interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o-literal de G\u00eanesis abordam a quest\u00e3o de diferentes modos. Alguns consideram G\u00eanesis 1 como mitologia (1); outros consideram-no poesia (2); alguns tomam-no como teologia (3); ainda outros o consideram como simbolismo. (4)\u00a0\u00a0 Comum a todas estas interpreta\u00e7\u00f5es n\u00e3o-literais \u00e9 a suposi\u00e7\u00e3o de que o relato em G\u00eanesis n\u00e3o \u00e9 um relato literal e hist\u00f3rico da Cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Interpreta\u00e7\u00f5es literais<\/b><\/p>\n<p>Aqueles que aceitam literalmente o relato da Cria\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m diferem em sua abordagem da cosmogonia b\u00edblica de G\u00eanesis 1. Vamos indicar tr\u00eas pontos de vista.<\/p>\n<p><span class=\"txtazulneg\">Teoria de um intervalo ativo<\/span><br \/>\nEsta opini\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m conhecida como a teoria de ru\u00edna-restaura\u00e7\u00e3o. Segundo esta opini\u00e3o, (5) G\u00eanesis 1:1 descreve uma cria\u00e7\u00e3o originalmente perfeita a um tempo desconhecido (milh\u00f5es ou bilh\u00f5es de anos atr\u00e1s). Satan\u00e1s era o regente deste mundo, mas por causa de sua rebeli\u00e3o (Isa\u00edas 14:12-17), o pecado entrou no Universo. Deus condenou a rebeli\u00e3o e reduziu o mundo ao estado arruinado e ca\u00f3tico descrito em G\u00eanesis 1:2. Os que mant\u00eam esta opini\u00e3o traduzem G\u00eanesis 1:2 como \u201ca terra tornou-se sem forma e vazia\u201d.<\/p>\n<p>G\u00eanesis 1:3 e os versos seguintes apresentam ent\u00e3o o relato de uma cria\u00e7\u00e3o posterior na qual Deus restaura o que tinha sido arruinado. A coluna geol\u00f3gica \u00e9 usualmente inserida no per\u00edodo da primeira cria\u00e7\u00e3o (G\u00eanesis 1:1) e do caos subseq\u00fcente, e n\u00e3o em conex\u00e3o com o Dil\u00favio b\u00edblico.<\/p>\n<p><span class=\"txtazulneg\">Teoria de uma cria\u00e7\u00e3o pr\u00e9via \u201csem forma e vazia\u201d<\/span><br \/>\nSegundo esta interpreta\u00e7\u00e3o os termos hebraicos tohu (\u201csem forma\u201d) e bohu (\u201cvazia\u201d) em G\u00eanesis 1:2 descrevem o estado sem forma e sem conte\u00fado da Terra. O texto se refere a um estado anterior \u00e0 Cria\u00e7\u00e3o mencionada na B\u00edblia. Esta opini\u00e3o tem duas variantes principais baseadas em duas an\u00e1lises gramaticais diferentes.<\/p>\n<p>A primeira variante considera G\u00eanesis 1:1 como uma cl\u00e1usula dependente, em paralelo com os relatos da Cria\u00e7\u00e3o extra-b\u00edblicos do Oriente Pr\u00f3ximo. (6) Da\u00ed a tradu\u00e7\u00e3o proposta: \u201cQuando Deus come\u00e7ou a criar os c\u00e9us e a terra\u201d. Portanto, G\u00eanesis 1:2 equivale a um par\u00eanteses, que descreve o estado da Terra quando Deus come\u00e7ou a criar (\u201ca Terra estando &#8230;\u201d) e G\u00eanesis 1:3 em diante descreve a obra criadora efetiva (\u201cE Deus disse &#8230;\u201d).<\/p>\n<p>As outras variantes principais consideram G\u00eanesis 1:1 como uma cl\u00e1usula independente, e como um sum\u00e1rio ou introdu\u00e7\u00e3o formal, ou t\u00edtulo, que \u00e9 ent\u00e3o ampliado no resto da narrativa. (7) G\u00eanesis 1:2 \u00e9 visto como uma cl\u00e1usula circunstancial ligada com o verso 3: \u201cA Terra, por\u00e9m, era sem forma e vazia &#8230; Disse Deus: \u2018Haja luz\u2019.\u201d<\/p>\n<p>Deste ponto de vista, apoiado por qualquer das an\u00e1lises gramaticais mencionadas acima, G\u00eanesis n\u00e3o oferece um come\u00e7o absoluto de tempo para o cosmos. Cria\u00e7\u00e3o a partir do nada n\u00e3o \u00e9 implicada, e n\u00e3o h\u00e1 indica\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de Deus antes da mat\u00e9ria. Nada \u00e9 dito da cria\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria original descrita no verso 2. Trevas, abismo e \u00e1guas de G\u00eanesis 1:2 j\u00e1 existiam no come\u00e7o da atividade criadora de Deus.<\/p>\n<p>Pod\u00edamos mencionar de passagem uma outra opini\u00e3o pr\u00e9-Cria\u00e7\u00e3o; esta toma o verso 2 como uma cl\u00e1usula dependente \u201cquando &#8230;\u201d, mas difere da primeira variante na interpreta\u00e7\u00e3o dos termos tohu e bohu, e os termos para \u201ctrevas\u201d e \u201cabismo\u201d &#8211; todos significando \u201cnada\u201d. Assim o verso 1 \u00e9 visto como um sum\u00e1rio; o verso 2 diz que inicialmente n\u00e3o havia \u201cnada\u201d; e o verso 3 descreve o come\u00e7o do processo criador. (8)<\/p>\n<p><span class=\"txtazulneg\">Teoria de um estado inicial \u201csem forma e vazio\u201d.<\/span><br \/>\nUma terceira interpreta\u00e7\u00e3o literal da cosmogonia b\u00edblica \u00e9 a de um estado inicialmente \u201csem forma e vazio\u201d. Esta \u00e9 a opini\u00e3o tradicional, tendo o apoio da maioria dos int\u00e9rpretes judeus e crist\u00e3os atrav\u00e9s da hist\u00f3ria. (9) Segundo esta interpreta\u00e7\u00e3o, G\u00eanesis 1:1 declara que Deus criou do nada a mat\u00e9ria original chamada c\u00e9us e Terra no ponto de seu come\u00e7o absoluto. O verso 2 esclarece que quando a Terra foi primeiro criada ela estava num estado de tohu e bohu &#8211; sem forma e vazia. O verso 3 e os versos seguintes ent\u00e3o descrevem o processo divino de dar forma ao informe e de encher o vazio.<\/p>\n<p>Esta interpreta\u00e7\u00e3o tem duas variantes. Alguns consideram os versos 1 e 2 como partes do primeiro dia de uma semana de sete dias. Podemos cham\u00e1-la a interpreta\u00e7\u00e3o \u201csem intervalo\u201d. (10) Outros v\u00eaem os versos 1 e 2 como uma unidade cronol\u00f3gica separada por um intervalo de tempo do primeiro dia da Cria\u00e7\u00e3o descrito no verso 3. Esta opini\u00e3o \u00e9 usualmente chamada a do \u201cintervalo passivo.\u201d (11)<\/p>\n<p><b>AVALIA\u00c7\u00c3O<\/b><\/p>\n<p>O espa\u00e7o n\u00e3o permite uma avalia\u00e7\u00e3o pormenorizada de todos os pr\u00f3s e contras de cada opini\u00e3o aqui resumida, mas apresentaremos o esbo\u00e7o dos dados b\u00edblicos que se referem \u00e0s teorias sobre a origem da mat\u00e9ria e da vida e sua exist\u00eancia primitiva.<\/p>\n<p><b>Interpreta\u00e7\u00f5es n\u00e3o-literais<\/b><\/p>\n<p>Ao considerar todas as interpreta\u00e7\u00f5es n\u00e3o-literais e n\u00e3o-hist\u00f3ricas, precisamos levar em conta dois fatos b\u00edblicos significativos:<\/p>\n<blockquote><p>1. O g\u00eanero liter\u00e1rio de G\u00eanesis 1-11 indica a natureza intencionalmente literal da narrativa. (12) O livro de G\u00eanesis \u00e9 estruturado pelo termo gera\u00e7\u00f5es (hebraico toledoth) em rela\u00e7\u00e3o com cada se\u00e7\u00e3o do livro (13 vezes). Este \u00e9 um termo usado alhures em conex\u00e3o com genealogias que t\u00eam que ver com um relato exato de tempo e hist\u00f3ria. O uso de toledoth em G\u00eanesis 2:4 mostra que o autor pretendia que a narrativa da Cria\u00e7\u00e3o fosse t\u00e3o literal como o resto das narrativas de G\u00eanesis. (13) Outros escritores b\u00edblicos tomam G\u00eanesis 1-11 como literal. Com efeito, todos os escritores do Novo Testamento se referem a G\u00eanesis 1-11 como hist\u00f3ria literal. (14)<\/p>\n<p>2. Evid\u00eancia interna tamb\u00e9m indica que o relato da Cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve ser tomado simbolicamente como sete longos per\u00edodos segundo o modelo evolucionista &#8211; como \u00e9 sugerido por cr\u00edticos eruditos, bem como por evang\u00e9licos. Os termos tarde e manh\u00e3 significam um dia literal de 24 horas. Alhures nas Escrituras, o termo dia com um n\u00famero ordinal \u00e9 sempre literal. Se os dias da Cria\u00e7\u00e3o s\u00e3o simb\u00f3licos, \u00caxodo 20:8-11 que comemora um S\u00e1bado literal n\u00e3o tem sentido. Refer\u00eancias \u00e0 fun\u00e7\u00e3o do Sol e da Lua para sinais, esta\u00e7\u00f5es, dias e anos (G\u00eanesis 1:4), tamb\u00e9m indicam tempo literal e n\u00e3o simb\u00f3lico. Portanto, devemos concluir que G\u00eanesis 1:1 a 2:4 indica sete dias literais, consecutivos, de 24 horas. (15)<\/p><\/blockquote>\n<p>Embora as interpreta\u00e7\u00f5es n\u00e3o-literais devam ser rejeitadas no que negam (a saber, a natureza literal e hist\u00f3rica do relato de G\u00eanesis), n\u00e3o obstante possuem um elemento de verdade no que afirmam.<br \/>\nG\u00eanesis 1-2 tem que ver com mitologia &#8211; n\u00e3o para afirmar uma interpreta\u00e7\u00e3o mitol\u00f3gica, mas como pol\u00eamica contra a antiga mitologia do Oriente Pr\u00f3ximo. (16) Os vers\u00edculos de G\u00eanesis 1:1 a 2:4 provavelmente s\u00e3o estruturados de um modo semelhante \u00e0 poesia hebraica (paralelismo sint\u00e9tico), (17) mas poesia n\u00e3o nega historicidade (ver por exemplo, \u00caxodo 15, Daniel 7 e aproximadamente 40 por cento do Antigo Testamento, que s\u00e3o poesia.) Escritores b\u00edblicos freq\u00fcentemente escrevem em poesia para afirmar historicidade.<\/p>\n<p>Os vers\u00edculos de G\u00eanesis 1-2 apresentam uma teologia profunda: doutrinas de Deus, Cria\u00e7\u00e3o, humanidade, S\u00e1bado, etc. Mas nas Escrituras teologia n\u00e3o se op\u00f5e \u00e0 hist\u00f3ria. Com efeito, a teologia b\u00edblica tem sua raiz na hist\u00f3ria. De igual modo h\u00e1 um simbolismo profundo em G\u00eanesis 1. Por exemplo, a linguagem do Jardim do \u00c9den e a ocupa\u00e7\u00e3o de Ad\u00e3o e Eva claramente aludem ao simbolismo do santu\u00e1rio e ao trabalho dos levitas (ver \u00caxodo 25-40). (18) Assim o santu\u00e1rio do \u00c9den \u00e9 um s\u00edmbolo ou tipo do santu\u00e1rio celestial. Mas porque aponta para algo diferente n\u00e3o diminui sua realidade literal.<\/p>\n<p>Gerhard von Rad, um erudito cr\u00edtico que n\u00e3o aceita o que G\u00eanesis 1 afirma, ainda assim confessa honestamente: \u201cO que \u00e9 dito aqui ( G\u00eanesis 1) \u00e9 para ser tomado inteiramente e exatamente como est\u00e1\u201d (19).<\/p>\n<p>Portanto, n\u00f3s afirmamos a natureza literal e hist\u00f3rica do relato de G\u00eanesis. Mas qual interpreta\u00e7\u00e3o literal \u00e9 correta?<\/p>\n<p><b>Interpreta\u00e7\u00f5es literais<\/b><\/p>\n<p>Primeiro, precisamos de in\u00edcio rejeitar a teoria de ru\u00edna-restaura\u00e7\u00e3o ou \u201cintervalo ativo\u201d puramente por raz\u00f5es de gram\u00e1tica. G\u00eanesis 1:2 claramente encerra tr\u00eas cl\u00e1usulas nominais e o sentido fundamental de cl\u00e1usulas nominais em hebraico \u00e9 algo fixo, um estado; (20) n\u00e3o uma seq\u00fc\u00eancia ou a\u00e7\u00e3o. Segundo as regras da gram\u00e1tica hebraica, precisamos traduzir \u201ca Terra era sem forma e vazia\u201d, e n\u00e3o \u201ca Terra tornou-se sem forma e vazia\u201d. Assim a gram\u00e1tica hebraica n\u00e3o deixa lugar para a teoria de um intervalo ativo.<\/p>\n<p>Que dizer da interpreta\u00e7\u00e3o de uma cria\u00e7\u00e3o pr\u00e9via \u201csem forma e vazia\u201d na qual o estado de tohu-bohu de G\u00eanesis 1:2 precede a cria\u00e7\u00e3o divina? Alguns apoiam essa teoria traduzindo o verso 1 como uma cl\u00e1usula dependente. Mas a melhor evid\u00eancia favorece a leitura tradicional de G\u00eanesis 1:1 como uma cl\u00e1usula independente: \u201cNo princ\u00edpio criou Deus os c\u00e9us e a Terra.\u201d Isto inclui a evid\u00eancia dos acentos no hebraico, todas as antigas vers\u00f5es, considera\u00e7\u00f5es l\u00e9xico-gramaticais, sint\u00e1ticas e estil\u00edsticas, e compara\u00e7\u00e3o com antigas lendas do Oriente Pr\u00f3ximo. (21) O peso da evid\u00eancia me leva a reter a leitura tradicional.<\/p>\n<p>Outros suportam a teoria de uma cria\u00e7\u00e3o pr\u00e9via \u201csem forma e vazia\u201d interpretando G\u00eanesis 1:1 como um sum\u00e1rio do cap\u00edtulo todo (o ato da cria\u00e7\u00e3o s\u00f3 come\u00e7ando no verso 3). Mas se G\u00eanesis 1 come\u00e7a apenas com um t\u00edtulo ou sum\u00e1rio, ent\u00e3o o verso 2 contradiz o verso 1. Deus cria a Terra (verso 1), mas a Terra existe antes da Cria\u00e7\u00e3o (verso 2). Esta interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode explicar a refer\u00eancia \u00e0 exist\u00eancia da Terra j\u00e1 no verso 2. Rompe a continuidade entre os versos 1 e 2 no uso do termo terra. (22) Concluo, portanto, que G\u00eanesis 1:1 n\u00e3o \u00e9 simplesmente um sum\u00e1rio ou t\u00edtulo do cap\u00edtulo todo.<\/p>\n<p>Contra a sugest\u00e3o de que todas as palavras em G\u00eanesis 1:2 simplesmente implicam \u201cnada\u201d, deve ser dito que o verso 3 e os versos seguintes n\u00e3o descrevem a cria\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, mas assumem sua exist\u00eancia pr\u00e9via. O termo tehon &#8211; \u201cabismo\u201d- combinado com tohu e bohu (como em Jeremias 4:34) n\u00e3o parecem referir-se ao nada, mas \u00e0 Terra num estado sem forma e vazia, coberta de \u00e1gua.<\/p>\n<p>Isto nos leva \u00e0 teoria de um estado inicialmente sem forma e vazio. A seq\u00fc\u00eancia do pensamento em G\u00eanesis 1:1-3 tem levado a maioria dos int\u00e9rpretes crist\u00e3os e judeus a esta opini\u00e3o, que por conseguinte \u00e9 chamada de opini\u00e3o tradicional.<\/p>\n<p><b>A seq\u00fc\u00eancia natural de G\u00eanesis 1-2<\/b><\/p>\n<p>Concordo com esta opini\u00e3o, porque acho que s\u00f3 esta interpreta\u00e7\u00e3o obedece \u00e0 seq\u00fc\u00eancia natural destes versos, sem contradi\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o de qualquer elemento no texto.<\/p>\n<p>A seq\u00fc\u00eancia do pensamento em G\u00eanesis 1-2 \u00e9 como segue:<\/p>\n<blockquote><p>a. Deus antecede a cria\u00e7\u00e3o (verso 1).<br \/>\nb. H\u00e1 um princ\u00edpio absoluto do tempo com rela\u00e7\u00e3o a este mundo e \u00e0s esferas celestes que o cercam (verso 1).<br \/>\nc. Deus cria os c\u00e9us e a Terra (verso 1), mas para come\u00e7ar eles s\u00e3o diferentes do que agora, s\u00e3o \u201csem forma\u201d e \u201cvazios\u201d (tohu e bohu; verso 2).<br \/>\nd. No primeiro dia da semana de sete dias da Cria\u00e7\u00e3o, Deus come\u00e7a a formar e encher o tohu e bohu (verso 3 e os versos seguintes).<br \/>\ne. A atividade divina de \u201cformar e criar\u201d \u00e9 efetuada em seis dias sucessivos de 24 horas cada.<br \/>\nf. No final da semana da Cria\u00e7\u00e3o, os c\u00e9us e a Terra est\u00e3o terminados (G\u00eanesis 2:1). O que Deus come\u00e7ou no verso 1 est\u00e1 agora finalizado.<br \/>\ng. Deus descansa no s\u00e9timo dia, aben\u00e7oando-o e santificando-o como um memorial da Cria\u00e7\u00e3o (2:1-4).<\/p><\/blockquote>\n<p><b>A ambig\u00fcidade do \u201cquando\u201d<\/b><\/p>\n<p>Os pontos acima est\u00e3o claros na seq\u00fc\u00eancia do pensamento de G\u00eanesis 1-2. N\u00e3o obstante, h\u00e1 um aspecto crucial neste processo da Cria\u00e7\u00e3o que o texto deixa aberto e amb\u00edguo: Quando ocorreu o princ\u00edpio absoluto dos c\u00e9us e da Terra no verso 1? Foi no come\u00e7o dos sete dias da Cria\u00e7\u00e3o ou algum tempo antes? \u00c9 poss\u00edvel que a mat\u00e9ria bruta dos c\u00e9us e da Terra em seu estado informe fosse criada muito tempo antes dos sete dias da semana da Cria\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 a teoria do \u201cintervalo passivo\u201d. Tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel que a mat\u00e9ria bruta descrita em G\u00eanesis 1:1-2 esteja inclu\u00edda no primeiro dia da semana da Cria\u00e7\u00e3o. Esta se chama a teoria da \u201caus\u00eancia de intervalo\u201d.<\/p>\n<p>Esta ambig\u00fcidade no texto hebraico tem implica\u00e7\u00f5es na interpreta\u00e7\u00e3o do Pr\u00e9-cambriano da coluna geol\u00f3gica, si se equacionar o Pr\u00e9-cambriano com a \u201cmat\u00e9ria bruta\u201d descrita em G\u00eanesis 1:1-2 (naturalmente este equacionamento est\u00e1 sujeito a debate). H\u00e1 a possibilidade de um Pr\u00e9-cambriano recente, criado como parte da semana da Cria\u00e7\u00e3o (talvez com a apar\u00eancia de idade alta). H\u00e1 tamb\u00e9m a possibilidade de que a \u201cmat\u00e9ria bruta\u201d fosse criada no princ\u00edpio absoluto da Terra e das esferas celestes circundantes, talvez milh\u00f5es ou bilh\u00f5es de anos atr\u00e1s. Este estado inicial informe e vazio \u00e9 descrito no verso 2. O verso 3 e os versos seguintes ent\u00e3o descrevem o processo de formar e encher durante a semana da Cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Concluo que o texto b\u00edblico de G\u00eanesis 1 deixa margem tanto para (a) um Pr\u00e9-cambriano recente (criado como parte dos sete dias da cria\u00e7\u00e3o) ou (b) rochas muito mais antigas e sem f\u00f3sseis, com um longo intervalo entre a cria\u00e7\u00e3o da \u201cmat\u00e9ria bruta\u201d descrita em G\u00eanesis 1:1-2 e os sete dias da semana da Cria\u00e7\u00e3o descrita no verso 3 e nos versos seguintes. Mas tanto num caso como no outro, o texto b\u00edblico requer uma cronologia breve para a vida na Terra. N\u00e3o h\u00e1 margem para um intervalo de tempo na cria\u00e7\u00e3o da vida na Terra: ela surgiu do terceiro ao sexto dias literais e consecutivos da semana da Cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias<\/b><\/p>\n<p class=\"textoCinza\">(1) Ver Hermann Gunkel, Sch\u00f6pfung und Chaos (Gottingen: Vandenhoeck &amp; Ruprecht, 1985); B. S. Childs, Myth and Reality in the Old Testament, Studies in Biblical Theology, 27 (London: SCM Press, 1962), p\u00e1gs. 31-50.<br \/>\n(2) Ver D. F. Payne, Genesis One Reconsidered (London: Tyndala, 1964); Henri Blocher, In the Beginning: The Opening Chapters of Genesis (Downers Grove, III.: Inter-Varsity Press, 1984), p\u00e1gs. 49-59.<br \/>\n(3) Ver Conrad Hyers, The Meaning of Creation: Genesis and Modern Science (Atlanta: John Knox, 1984): Davis Young, Creation and the Flood: An Alternative to Flood Geology and Theistic Evolution (Grand Rapids, Mich.: Baker, 1974), p\u00e1gs. 86-89.<br \/>\n(4) Ver Derek Kidner, Genesis: An Introduction and Commentary, Tyndale Old Testament (Downers Grove, III.: Inter-Varsity Press, 1967), p\u00e1gs. 54-58; P. J. Wiseman, Creation Revealed in Six Days (London: Marshall, Morgan, e Scott, 1948), p\u00e1gs. 33-34.; Robert C. Newman e Herman J. Eckelmann, Jr., Genesis One and the Origin of the Earth (Downers Grove, III.: Inter-Varsity Press, 1977), p\u00e1gs. 64-65.<br \/>\n(5) Ver Arthur Custance, Without Form and Void (Brockville, Canada: pelo autor, 1970); e a Scofield Reference Bible (1917, 1967).<br \/>\n(6) Ver as seguintes tradu\u00e7\u00f5es modernas de G\u00eanesis 1:1-3: The New Jewish Version (NJV), New American Bible (NAB) cat\u00f3lica, New English Bible; ver tamb\u00e9m E. A. Speiser, Anchor Bible: Genesis (Garden City, N. Y.: Doubleday, 1964), pp. 3, 8-13.<br \/>\n(7) Ver Gerhard von Rad, Genesis: A Commentary, Biblioteca do Antigo Testamento (Philadelphia: Westminster, 1972), p\u00e1g. 49; Bruce Waltke, \u201cThe Creation Account in Genesis 1:1-3; Parte III: The Initial Chaos Theory\u201d, Bibliotheca Sacra 132 (1975), pp. 225-228.<br \/>\n(8) Ver Jacques Doukhan, The Genesis Creation Story: Its Literary Structure, S\u00e9rie de Teses Doutorais apresentadas no Semin\u00e1rio da Andrews University, 5 (Berrien Springs, Mich.: Andrews University Press, 1978), pp. 63-73.<br \/>\n(9) Uma lista dos principais adeptos e uma defesa detalhada desta posi\u00e7\u00e3o se encontra em Gerhard Hasel, \u201cRecent Translations of Genesis 1:1\u201d, The Bible Translator, 22 (1971), pp. 154-167; e idem, \u201cThe Meaning of Genesis 1:1\u201d, Ministry (janeiro de 1976), pp. 21-24.<br \/>\n(10) Ver Henry Morris, The Biblical Basis for Modern Science (Grand Rapids, Mich.: Baker, 1984); e Idem, The Genesis Record (Grand Rapids, Mich.: Baker, 1976), pp. 17-104.<br \/>\n(11) Ver Harold G. Coffin, Origin by Design (Hagerstown, Md.: Review and Herald, 1983), pp. 292-293, que concorda com esta possibilidade. Al\u00e9m disto, Clyde L. Webster, Jr., \u201cG\u00eanesis e Cronologia: O Que a Data\u00e7\u00e3o Radiom\u00e9trica nos Informa\u201d, Di\u00e1logo 5:1 (1993), pp. 5-8.<br \/>\n(12) Ver Walker Kaiser, \u201cThe Literary Form of Genesis 1-111\u201d, em The New Perspectives on the New Testament, J. Barton Payne, ed. (Waco, Texas:World, 1970), pp. 48-65.<br \/>\n(13) Dukhan, pp. 167-220.<br \/>\n(14) Ver Mateus 19:4-5; 24:37-39; Marcos 10:6; Lucas 3:38; 17:26-27; Romanos 5:12; I Cor\u00edntios 6:16; 11:8-9, 12; 15:21-22, 45; II Cor\u00edntios 11:3; \u00c9fesios 5:31; I Tim\u00f3teo 2:13-14; Hebreus 11:7; I Pedro 3:20; II Pedro 2:5; 3:4-6; Tiago 3:9; I Jo\u00e3o 3:12; Judas 11, 14: Apocalipse 14:7.<br \/>\n(15) Para mais evid\u00eancias ver Terrance Fretheim, \u201cWere the Days of Creation twenty-four Hours Long? YES\u201d, em The Genesis Debate: The Persistent Questions About Creation and the Flood, Ronald F. Youngblood, ed. (Grand Rapids, Mich.: Baker, 1990), pp. 12-35.<br \/>\n(17) Ver Gordon J. Wenham, World Biblical Commentary: Gen 1-15 (Waco, Texas: World, 1987), pp. 6-7, para um diagrama da combina\u00e7\u00e3o sim\u00e9trica dos dias da Cria\u00e7\u00e3o.<br \/>\n(18) Ver Gordon J. Wenham, \u201cSanctuary Symbolism in the Garden of Eden Story\u201d, Proceedings of the World Congress of Jewish Studies, 9 (1986), pp. 19-25.<br \/>\n(19) Von Rad, pp. 47.<br \/>\n(20) Ver Gesenius\u2019 Hebrew Grammar, E. Kautzsch e A. E. Cowley, eds. (Oxford: Clarendon Press, 1910, 1974). p\u00e1g. 454 (par. 141 i); R. L. Reymond, \u201cDoes Genesis 1:1-3 Teach Creation Out of Nothing?\u201d Scientific Studies in Special Creation W. E. Lammerts, ed. (Grand Rapids, Mich.: Baker, 1971), pp. 14-17.<br \/>\n(21) Ver Hasel, \u201cRecent Translations\u201d e \u201cThe Meaning of Genesis 1:1\u201d.<br \/>\n(22) Genesius\u2019 Hebrew Grammar, p\u00e1g. 455 (par. 142 c), que identifica o verso 2 como uma cl\u00e1usula circunstancial contempor\u00e2nea com a cl\u00e1usula principal do verso 1 (n\u00e3o do verso 3).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cNo princ\u00edpio criou Deus os c\u00e9us e a Terra.\u201d G\u00eanesis 1:1. Com tal beleza, majestade e simplicidade come\u00e7a o relato da Cria\u00e7\u00e3o em G\u00eanesis. Por\u00e9m, uma an\u00e1lise do cap\u00edtulo 1 de G\u00eanesis n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples e direta como uma leitura casual do texto b\u00edblico poderia sugerir. 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