{"id":641,"date":"1995-03-22T00:23:51","date_gmt":"1995-03-22T03:23:51","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacriacionista.org.br\/?p=641"},"modified":"2022-10-27T00:08:49","modified_gmt":"2022-10-27T03:08:49","slug":"o-hexameron","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/scb.org.br\/revistacriacionista\/artigos\/o-hexameron\/","title":{"rendered":"O Hexameron"},"content":{"rendered":"<table class=\"textopreto\" border=\"0\" width=\"100%\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"3\">\n<tbody>\n<tr>\n<td class=\"texto\" valign=\"TOP\">A institui\u00e7\u00e3o do s\u00e1bado ou do repouso do s\u00e9timo dia tem sua justifica\u00e7\u00e3o no hexameron ou na obra de seis dias da cria\u00e7\u00e3o. Assim rezam as Escrituras: \u201cO s\u00e9timo dia \u00e9 o s\u00e1bado do Senhor teu Deus &#8230; porque em seis dias fez o Senhor os c\u00e9us e a terra &#8230; e ao s\u00e9timo dia descansou &#8230; por isso aben\u00e7oou o Senhor o dia s\u00e9timo e o santificou\u201d (2). \u00c9 isto, do ponto de vista b\u00edblico, um fato que n\u00e3o admite nenhuma contesta\u00e7\u00e3o. A dificuldade, por\u00e9m, que modernamente contra ele se tem suscitado, \u00e9 que, segundo os resultados de investiga\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e de descobertas modernas, feitas mormente no dom\u00ednio da geologia, esses dias n\u00e3o podem ser interpretados como dias literais, devendo representar per\u00edodos mais ou menos longos.<\/p>\n<p><center><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-642\" src=\"https:\/\/revistacriacionista.org.br\/wp-content\/uploads\/sites\/11\/2019\/10\/7dias.jpg\" alt=\"\" width=\"490\" height=\"100\" srcset=\"https:\/\/scb.org.br\/revistacriacionista\/wp-content\/uploads\/sites\/11\/2019\/10\/7dias.jpg 490w, https:\/\/scb.org.br\/revistacriacionista\/wp-content\/uploads\/sites\/11\/2019\/10\/7dias-300x61.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 490px) 100vw, 490px\" \/><\/center>N\u00e3o \u00e9 aqui o lugar para entrarmos na aprecia\u00e7\u00e3o das teorias que levaram a esta conclus\u00e3o, muitas das quais, seja isto dito de passagem, exigem um maior esfor\u00e7o de f\u00e9 para ser acreditadas ou tomadas a s\u00e9rio do que a narra\u00e7\u00e3o genes\u00edaca dos seis dias literais. Elas t\u00eam sido de sobra discutidas e ventiladas em todos os seus aspectos, quer os mais graves e mais ou menos aceit\u00e1veis, como os absurdos e c\u00f4micos. Excusado \u00e9 nos referirmos tamb\u00e9m aos m\u00faltiplos erros, reconhecidos ou n\u00e3o, a que essas teorias t\u00eam dado lugar, e \u00e0s profundas diverg\u00eancias por elas determinadas entre os pr\u00f3prios cientistas, com rela\u00e7\u00e3o aos chamados per\u00edodos geol\u00f3gicos, alguns dos quais, de concess\u00e3o em concess\u00e3o, t\u00eam chegado a estabelecer para o mundo uma idade bastante aproximada da que lhe assina a B\u00edblia (3).<\/p>\n<p>A este respeito seja-nos permitido citar aqui um significativo exemplo. Como \u00e9 sabido, a ci\u00eancia geol\u00f3gica se serve para tais c\u00e1lculos de diversos cron\u00f4metros, entre os quais tamb\u00e9m o da eros\u00e3o praticada pelas \u00e1guas dos rios nos leitos rochosos que percorrem (4).<\/p>\n<p>Transferido esse cron\u00f4metro para o Ni\u00e1gara, Desor, ge\u00f3logo su\u00ed\u00e7o, calculou em doze polegadas de profundidade, cada s\u00e9culo, a eros\u00e3o praticada pelas \u00e1guas no boqueir\u00e3o desse rio, fazendo remontar assim o seu come\u00e7o a tr\u00eas milh\u00f5es e quinhentos mil anos! (5) Lyell, ajudado pelo mesmo cron\u00f4metro, entendeu dever fazer uma concess\u00e3o bastante razo\u00e1vel: calculou o m\u00e1ximo da eros\u00e3o em doze polegadas por ano, de sorte a estabelecer para esse rio a idade de trinta e cinco mil anos, o que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 pouco (6).<\/p>\n<p>Bakewell e outros ge\u00f3logos de nomeada, por sua vez, acharam melhor aumentar mais um pouco a pot\u00eancia erosiva das \u00e1guas ou diminuir a resist\u00eancia do seu alv\u00e9olo rochoso, acelerando assim a marcha do seu cron\u00f4metro: elevaram ao triplo a marcha da eros\u00e3o e reduziram a dez ou quinze mil anos a idade desse rio (7). Ultimamente L. K. Gilbert do \u201cU. S. Geological Survey\u201d e R. S. Woodward, de Washington, depois de mais acuradas observa\u00e7\u00f5es e estudos, fixaram a propor\u00e7\u00e3o m\u00e9dia da eros\u00e3o em sessenta polegadas por ano; e agora Mr. Gilbert, cuja compet\u00eancia ningu\u00e9m contesta, afirma que o m\u00e1ximo de tempo decorrido desde a forma\u00e7\u00e3o dessa catarata n\u00e3o excede de sete mil anos, e que mesmo essa medida pode merecer ainda consider\u00e1vel redu\u00e7\u00e3o! (8) Dawson chegava ultimamente quase \u00e0 mesma conclus\u00e3o(9). \u00c9 de esperar, pois, que, com o tempo, tamb\u00e9m os demais cron\u00f4metros venham a experimentar id\u00eantica retifica\u00e7\u00e3o, e finalmente os nossos c\u00e1lculos estar\u00e3o com a B\u00edblia.<\/p>\n<p class=\"textopeq\"><b>Figura 1 &#8211; Cataratas do Ni\u00e1gara &#8211; Vista do desfiladeiro a jusante, at\u00e9 Queenstown. Ilustra\u00e7\u00e3o constante do livro de Lyell, \u201cPrinciples of Geology\u201d, op. cit. p. 215. (constante da vers\u00e3o impressa)<\/b><\/p>\n<p>Um fato recente merece ser ainda aqui citado como prova da fal\u00e1cia dessas teorias, mediante as quais se quer exigir de n\u00f3s uma retifica\u00e7\u00e3o da B\u00edblia. \u00c9 de todos conhecida a teoria das nebulosas, que tem servido tamb\u00e9m para explicar a origem da Terra e os longos per\u00edodos reclamados, segundo essa teoria, para a forma\u00e7\u00e3o de nosso globo (10).<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 muito tempo, a estrela Nova em Perseu veio dar aos adeptos dessa teoria uma li\u00e7\u00e3o de mestre, invertendo-lhes por completo a mesma \u00e0 vista de seus olhos com transformar-se de estrela simples que era numa verdadeira nebulosa!(11) E, em vez de reclamar para esse processo involutivo, se \u00e9 permitido assim chamar-lhe, milh\u00f5es de anos, como era de mister, a ser verdadeira a dita teoria, a transforma\u00e7\u00e3o operou-se dentro de poucas semanas, com grande espanto dos que lhe observaram a marcha. O processo mesmo \u00e9 aos olhos do mundo cient\u00edfico um perfeito enigma. O professor Garret Seviss, not\u00e1vel escritor sobre astronomia, assim se exprime a prop\u00f3sito desse fen\u00f4meno no Examiner, de S\u00e3o Francisco, de 29 de dezembro de 1901:<\/p>\n<p>\u201cIsto (a nebulosa em Perseu) \u00e9 um dos fatos at\u00e9 aqui observados que mais se aproxima de uma nova cria\u00e7\u00e3o nos espa\u00e7os &#8230; Se pud\u00e9ssemos imaginar que o processo, que esses movimentos revelam, constitui realmente a forma\u00e7\u00e3o de qualquer coisa an\u00e1loga ao nosso sistema solar, ter\u00edamos de admitir, com efeito, que a cria\u00e7\u00e3o do mundo se houvesse efetuado no limitado espa\u00e7o de meses ou de anos em vez de longos per\u00edodos de tempo, e a imagina\u00e7\u00e3o seria naturalmente transportada para a narra\u00e7\u00e3o genes\u00edaca da cria\u00e7\u00e3o do mundo em seis dias\u201d. E acham que seria mais dif\u00edcil admitir isto do que aceitar tantas outras teorias que nenhuma certeza oferecem?<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que o caso da Nova em Perseu veio ainda uma vez zombar de nossas teorias cient\u00edficas, provando qu\u00e3o pouco nos \u00e9 dado saber acerca das leis que presidiram \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do mundo. Quanto ao que ensina a B\u00edblia, \u00e9 esta uma quest\u00e3o, como muito bem se exprimiu o professor Nicholson (12), de energia versus tempo, acrescentando que podemos t\u00e3o bem supor esses fen\u00f4menos geol\u00f3gicos o resultado de uma causa muito poderosa atuando num per\u00edodo de tempo relativamente curto, como sup\u00f4-los produzidos por uma for\u00e7a muito menos en\u00e9rgica exercendo-se num espa\u00e7o de tempo mais ou menos longo. A tend\u00eancia pronunciada de nossos cientistas, por\u00e9m, \u00e9 dar sempre \u00e0 atua\u00e7\u00e3o dessa for\u00e7a a maior latitude poss\u00edvel no tempo, de sorte a sair ganhando este toda vez que houver de ser confrontado com aquela. Ora, pretender por esse processo limitar o poder de Deus na forma\u00e7\u00e3o do mundo, baseado unicamente nos fatos incertos observados e nos minguados conhecimentos que possu\u00edmos das leis naturais, \u00e9 a coisa mais curiosa e rid\u00edcula que imaginar se pode.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada, pois, que nos obrigue a prescindir de nossa interpreta\u00e7\u00e3o ordin\u00e1ria dos seis dias da cria\u00e7\u00e3o, mas manda a sinceridade que aceitemos os fatos como eles s\u00e3o. A palavra hebraica iom, que \u00e9 invariavelmente traduzida \u201cdia\u201d, em todas as rela\u00e7\u00f5es, significa primeiramente o dia considerado em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 noite, isto \u00e9, o tempo alumiado pelo Sol (13). \u00c9 nesse sentido que est\u00e1 empregada no vers\u00edculo 16 do G\u00eanesis, primeiro cap\u00edtulo, onde se diz que o Sol devia presidir ao dia, e a Lua \u00e0 noite. Designa al\u00e9m disso o dia civil, isto \u00e9, um dia ordin\u00e1rio de vinte e quatro horas, compreendendo uma sucess\u00e3o regular de luz e trevas, chamadas no vers\u00edculo 5, respectivamente, dia e noite. \u00c0 parte essas acep\u00e7\u00f5es estritas, a palavra iom \u00e9 empregada tamb\u00e9m no sentido translato de \u201ctempo\u201d mais particularmente no plural, mas tamb\u00e9m no singular, podendo expressar um espa\u00e7o de tempo indefinido. Assim por exemplo \u201cnos dias de No\u00e9\u201d, quer dizer \u201cno tempo em que No\u00e9 vivia\u201d; \u201cno fim dos dias\u201d, devemos entender \u201cao cabo de um certo lapso de tempo\u201d; kol ha-iom significa n\u00e3o s\u00f3 \u201ctodo o dia\u201d, como tamb\u00e9m \u201ctodo o tempo, sempre\u201d (14); be-iom podemos traduzir \u201cno dia\u201d, e tamb\u00e9m \u201cquando, em qualquer tempo\u201d (15), como nesta passagem: \u201cNo dia em que dele comeres, etc.\u201d (16), quer dizer, \u201cquando, em qualquer tempo que dele comeres, etc.\u201d No caso vertente, por\u00e9m, uma tal hip\u00f3tese est\u00e1 absolutamente exclu\u00edda, a n\u00e3o ser que quis\u00e9ssemos interpretar metaforicamente tamb\u00e9m as express\u00f5es ereb e boqer, (\u201ctarde\u201d e \u201cmanh\u00e3\u201d) (17) que evidentemente restringem o sentido da palavra iom, n\u00e3o permitindo outra interpreta\u00e7\u00e3o que a de um dia literal, um espa\u00e7o de vinte e quatro horas. Ora ereb e boqer n\u00e3o t\u00eam ao que consta outro sentido no hebraico que aquele que tamb\u00e9m n\u00f3s emprestamos a essas palavras, e mesmo que tivessem n\u00e3o se poderia admitir outro na presente conjun\u00e7\u00e3o, porque depois do aparecimento da luz e feita a distin\u00e7\u00e3o entre a luz e as trevas, chamando Deus \u00e0 luz dia e \u00e0s trevas noite, o relator diz que veio a tarde, depois a manh\u00e3, que \u00e9 o reaparecimento da luz, e que isto perfez um dia (18).<\/p>\n<p>Finalmente \u00e9 excusado insistir mais sobre este ponto, porque seria curioso que o poder criador, ilimitado como \u00e9, exigisse para cada uma das diferentes cria\u00e7\u00f5es um espa\u00e7o de tempo mesmo limitado como esse, e de mais a mais, uniforme para todas elas. \u201cDeus falou e foi feito, mandou e logo apareceu\u201d, \u00e9 como noutro lugar descreve a B\u00edblia o processo da cria\u00e7\u00e3o (19). A a\u00e7\u00e3o do poder criador prescinde em \u00faltima an\u00e1lise do fator a que chamamos tempo; mas se a B\u00edblia, n\u00e3o obstante, assina aos diversos atos criadores intervalos de tempo uniformes e regulares, n\u00e3o \u00e9 porque eles tomassem justamente esse tempo, mas porque essa ordem e uniformidade obedecem ao intuito de uma institui\u00e7\u00e3o religiosa, que o mesmo relat\u00f3rio claramente revela e cujo estudo \u00e9 o objeto do presente livro (20). O fim do relat\u00f3rio do G\u00eanesis n\u00e3o \u00e9, pois, como muitos erradamente pretendem, fazer uma exposi\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da cria\u00e7\u00e3o do mundo, nem dar-nos um sistema de geologia, bot\u00e2nica, astronomia ou zoologia, e sim dar-nos juntamente com um conhecimento geral da origem das coisas, as bases e a justifica\u00e7\u00e3o de uma das mais importantes institui\u00e7\u00f5es da religi\u00e3o, que \u00e9 o repouso do s\u00e9timo dia.<\/p>\n<p>Muita preven\u00e7\u00e3o tem sido no entanto criada ao relat\u00f3rio do G\u00eanesis com atribuirem-se-lhe id\u00e9ias que ele absolutamente n\u00e3o inculca e com interpretarem-se erroneamente algumas de suas passagens. A B\u00edblia, tendo por fim instruir-nos para a salva\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se ocupa de ci\u00eancias naturais e, quando aparentemente entra nesse dom\u00ednio, n\u00e3o \u00e9 com o fim de enriquecer os nossos conhecimentos a tal respeito, e sim visando algum fim espiritual ou religioso, falando ent\u00e3o sempre a linguagem comum dos mortais e tratando as coisas do ponto de vista exclusivo destes. \u201cA Astronomia\u201d, disse Kepler (21), \u201censina a conhecer as causas que atuam sobre a natureza, e retifica \u2018ex professo\u2019 as ilus\u00f5es da \u00f3tica. A Sagrada Escritura, que ensina as verdades mais sublimes, serve-se das locu\u00e7\u00f5es usuais a fim de ser compreendida; n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o por incidente que ela fala dos fen\u00f4menos da natureza, e ent\u00e3o emprega os termos de que se serve o comum dos homens. E a Escritura n\u00e3o se teria exprimido de outro modo, ainda quando todos os homens conhecessem perfeitamente a causa das ilus\u00f5es da \u00f3tica; porque n\u00f3s, os astr\u00f4nomos, n\u00e3o aperfei\u00e7oamos a ci\u00eancia astron\u00f4mica com inten\u00e7\u00e3o de modificar o uso da l\u00edngua, mas queremos abrir as portas \u00e0 verdade, conservando a mesma terminologia. N\u00f3s dizemos com o povo: Os planetas param, voltam &#8230; o sol nasce e p\u00f5e-se, sobe para o meio do c\u00e9u, etc. &#8230; Falamos com o povo, exprimimos o que parece passar-se diante de nossos olhos, posto que nada de tudo isto seja verdadeiro, entretanto todos os astr\u00f4nomos est\u00e3o de acordo. Devemos tanto menos exigir da Escritura sobre este ponto, quanto \u00e9 certo que ela, se abandonasse a linguagem ordin\u00e1ria para tomar a da ci\u00eancia e falar em termos obscuros, que n\u00e3o seriam compreendidos daqueles que ela quer instruir, confundiria os simples fi\u00e9is, e n\u00e3o conseguiria o fim sublime que se prop\u00f5e\u201d.<\/p>\n<p>O que Kepler a\u00ed disse \u00e9 t\u00e3o intuitivo, que custa a compreender como \u00e9 que homens de not\u00e1vel saber pudessem exigir outra coisa \u00e0 B\u00edblia. Ora, se o relat\u00f3rio do G\u00eanesis, divertindo o grande fim que tem em vista, falasse a linguagem divina, descrevendo os atos da cria\u00e7\u00e3o do ponto de vista do seu grande Autor, nem ainda o s\u00e9culo XX com toda a sua alardeada sabedoria seria capaz de compreend\u00ea-lo, e correria o risco de ser ainda uma vez votado ao desprezo pela simples ignor\u00e2ncia deste.<\/p>\n<p>Nem mesmo como objeto de revela\u00e7\u00e3o o hexameron poderia ser concebido numa linguagem diversa daquela em que nos \u00e9 apresentado. O relator, se n\u00e3o assiste em pessoa \u00e0 cria\u00e7\u00e3o, tem pelo menos uma revela\u00e7\u00e3o desta, e descreve-a, como qualquer vidente, do seu ponto de vista exclusivo, consoante as impress\u00f5es que tem das coisas que se desenrolam ante os seus olhos, e a pr\u00f3pria linguagem atribuida a Deus tem por sua vez de amoldar-se ao que o relator vidente \u00e9 capaz de perceber e compreender de tudo quanto se passa.<\/p>\n<p>Passando em revista o hexameron, devemos ter presente que h\u00e1 a\u00ed coisas que s\u00e3o criadas ou formadas, e outras que simplesmente aparecem, e que, portanto, j\u00e1 existem: Deus falou e foi feito, mandou e logo apareceu (22). Quando o relat\u00f3rio diz que \u201cno princ\u00edpio criou Deus os c\u00e9us e a terra\u201d (23), devemos n\u00e3o confundir estes termos. A terra a que se refere n\u00e3o \u00e9 o nosso planeta como um corpo celeste. Este j\u00e1 existe. O relat\u00f3rio menciona claramente os c\u00e9us em primeiro lugar, depois a terra, e isto atrav\u00e9s de toda a B\u00edblia. \u00c9 uma circunst\u00e2ncia que n\u00e3o devemos desprezar. Os c\u00e9us foram, portanto, a primeira coisa a ser feita, em seguida a terra. A luz, cujo aparecimento \u00e9 o ato do primeiro dia, n\u00e3o foi feita; ela j\u00e1 existe, como tamb\u00e9m j\u00e1 existem o Sol e a Lua, e todo o nosso sistema planet\u00e1rio; ela apenas aparece: \u201cDisse Deus: Haja luz, e houve luz\u201d (24). O hexameron refere-se pois exclusivamente ao que \u00e9 criado e feito aparecer sobre o nosso planeta.<\/p>\n<p>Como vimos, os c\u00e9us s\u00e3o a primeira coisa da qual se diz que ela foi feita. A palavra \u0161amajim, traduzida \u201cc\u00e9us\u201d(25), significa por\u00e9m literalmente as \u201c\u00e1guas opostas ou superiores\u201d, as \u201c\u00e1guas de cima\u201d, a \u201catmosfera\u201d. Esta \u00e9 a obra do segundo dia, quando Deus diz: \u201cFa\u00e7a-se um firmamento no meio das \u00e1guas (referindo-se \u00e0 \u00e1gua l\u00edq\u00fcida que cobre o nosso planeta e \u00e0 \u00e1gua gasosa ou aos vapores d\u2019\u00e1gua suspensos sobre a mesma), e haja separa\u00e7\u00e3o entre \u00e1guas e \u00e1guas. Fez pois Deus uma expans\u00e3o no meio das \u00e1guas e dividiu as \u00e1guas que estavam debaixo da expans\u00e3o das \u00e1guas que estavam por cima da expans\u00e3o; e assim se fez. Chamou Deus \u00e0 expans\u00e3o c\u00e9us (\u0161amajim, \u201c\u00e1guas opostas, superiores ou de cima\u201d)\u201d (26).<\/p>\n<p>A terra, que vem em segundo lugar, \u00e9 o elemento seco que aparece depois de criados os c\u00e9us, e \u00e9 a obra do terceiro dia, quando Deus diz: \u201cAjuntem-se num s\u00f3 lugar as \u00e1guas que est\u00e3o debaixo dos c\u00e9us (\u0161amajim), e apare\u00e7a o elemento seco. E chamou Deus ao elemento seco terra (\u00e9r\u00e9ts) (27) e ao ajuntamento das \u00e1guas mares (iammim)\u201d (28),(29). Temos pois em primeiro lugar a cria\u00e7\u00e3o dos c\u00e9us (\u0161amajim), depois a da terra (\u00e9r\u00e9ts), finalmente a reuni\u00e3o das \u00e1guas, mares (iammim, plural de iam, mar (30)), concordando isto com a ordem mencionada tamb\u00e9m no preceito do s\u00e1bado: \u201cEm seis dias fez o Senhor os c\u00e9us (\u0161amajim), e a terra (\u00e9r\u00e9ts) e o mar (iam)\u201d (31), donde se evidencia que a palavra terra (\u00e9r\u00e9ts) no primeiro vers\u00edculo do G\u00eanesis se refere exclusivamente ao elemento seco que Deus fez aparecer no terceiro dia e n\u00e3o ao nosso globo terrestre. Isto \u00e9 tamb\u00e9m corroborado pela seguinte declara\u00e7\u00e3o do ap\u00f3stolo Pedro em sua segunda ep\u00edstola: \u201cIsto de prop\u00f3sito esquecem, que eram j\u00e1 dantes os c\u00e9us e a terra que da \u00e1gua e no meio da \u00e1gua subsiste pela palavra de Deus\u201d (32).<\/p>\n<p>Esta terra, antes do ato do terceiro dia, conquanto subsista j\u00e1 dentro da \u00e1gua que cobre o planeta, n\u00e3o apresenta aos olhos do observador forma apreci\u00e1vel: est\u00e1 sem forma e nua (vazia), isto \u00e9, despida do ornamento de que se reveste do terceiro dia em diante. Cobrem-na por completo as \u00e1guas e as trevas. Ao mando de Deus a luz penetra as densas camadas de vapores e com ela o calor; os vapores se expandem e se elevam, ato do segundo dia, criando-se os c\u00e9us, as \u00e1guas superiores, que \u00e9 como Deus chama \u00e0 expans\u00e3o. Deus faz ent\u00e3o separa\u00e7\u00e3o entre a luz e as trevas, isto \u00e9, opera-se a rota\u00e7\u00e3o da Terra e a luz caminha para o seu limite (33): veio a tarde, diz o relator, depois a manh\u00e3 &#8211; a rota\u00e7\u00e3o completa-se &#8211; reaparece a luz &#8211; um dia!(34)<\/p>\n<p>Segue-se a opera\u00e7\u00e3o do segundo dia, por sua vez intimamente ligada \u00e0 do terceiro. Os vapores continuando a expandir-se e a elevar-se formam aos olhos do observador o firmamento azul que ele descreve como a expans\u00e3o separadora entre as \u00e1guas que vira subir e as \u00e1guas c\u00e1 debaixo (35). \u00c9 o que Deus denomina as \u00e1guas superiores ou os c\u00e9us, e que na mitologia eg\u00edpcia era considerado o mar ou o oceano celeste (36). O volume d\u2019\u00e1gua c\u00e1 debaixo continua diminuindo at\u00e9 finalmente aparecer o elemento seco, opera\u00e7\u00e3o que aos olhos do observador se afigura como a reuni\u00e3o das \u00e1guas num s\u00f3 lugar, pelo que a linguagem divina deve por sua vez amoldar-se inteiramente ao ponto de vista deste. J\u00e1 que n\u00e3o se trata de dar-nos uma cosmogonia real (37), que n\u00e3o \u00e9 o fim da B\u00edblia e que n\u00f3s nem sequer compreender\u00edamos, \u00e9 suficiente um conhecimento dos seus contornos gerais, satisfazendo isto plenamente ao fim que a B\u00edblia tem em vista. Est\u00e1 quase completa a opera\u00e7\u00e3o do terceiro dia e criados est\u00e3o os c\u00e9us (\u00e1guas superiores), a terra (o elemento seco) e o mar (a reuni\u00e3o das \u00e1guas), mas a terra continua vazia.<\/p>\n<p>Os vapores d\u2019\u00e1gua suspensos nos ares, posto que j\u00e1 bastante rarefeitos, apresentam todavia ainda densidade suficiente para ocultar aos olhos do observador o disco do Sol, da Lua e das estrelas. A luz do Sol, coando-se atrav\u00e9s desses vapores, desenvolve sobre a terra \u00famida condi\u00e7\u00f5es prop\u00edcias \u00e0 vegeta\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o ao reino animal. O relat\u00f3rio \u00e9 perfeitamente coerente. Segue-se a cria\u00e7\u00e3o do reino vegetal e completa-se a obra do segundo dia, que deixara a terra j\u00e1 com forma, mas ainda n\u00faa. A terra recebe agora a sua vestimenta (38). \u00c9 s\u00f3 ent\u00e3o que o observador diz que Deus \u201cViu que era bom\u201d (39), frase que ele repete depois da obra de cada dia, mas que propositalmente omitira com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 do segundo, por estar aquela obra ainda incompleta.<\/p>\n<p>Raia o quarto dia. O firmamento j\u00e1 bastante transparente deixa entrever o astro do dia, e depois a Lua e as estrelas. \u201cE disse Deus: Haja luminares na expans\u00e3o dos c\u00e9us, para haver separa\u00e7\u00e3o entre o dia e a noite, e sejam eles para sinais, e para tempos determinados, e para dias e anos. E sejam para luminares na expans\u00e3o dos c\u00e9us, para alumiar a terra, e assim foi\u201d (40).<\/p>\n<p>A linguagem est\u00e1 de perfeito acordo com as impress\u00f5es que tem o relator ao contemplar o aparecimento desses astros, e considerar do seu ponto de vista as suas aparentes fun\u00e7\u00f5es respectivas. S\u00e3o luminares, um maior outro menor. N\u00e3o t\u00eam ainda designa\u00e7\u00f5es especiais, mas alumiam a terra, um de dia outro de noite, fazendo separa\u00e7\u00e3o entre a luz e as trevas. Da opera\u00e7\u00e3o mesmo, que deu lugar ao seu aparecimento, o relator nada percebe, ele s\u00f3 descreve o que v\u00ea, que um \u00e9 maior e outro \u00e9 menor (\u00e9 o relator quem o diz) e acrescenta o que sabe de certo, a saber: que Deus criou esses luminares, e tamb\u00e9m as estrelas, e os colocou ali na expans\u00e3o dos c\u00e9us (\u00e9 este o seu ponto de vista) para alumiar a terra, para governar o dia e a noite, e fazer separa\u00e7\u00e3o entre aquele e esta, repetindo com estas \u00faltimas palavras tudo o que Deus disse, menos que deviam servir de sinais para tempos determinados (meses) e anos, por estarem estas coisas ainda fora do raio de suas observa\u00e7\u00f5es de momento (41). A linguagem extremamente concisa n\u00e3o omite particularidade alguma essencial, como tamb\u00e9m n\u00e3o acrescenta coisas descabidas. Completa-se assim a opera\u00e7\u00e3o do quarto dia, a qual \u00e9 descrita somente quanto aos seus efeitos vis\u00edveis. Com ela, por\u00e9m, est\u00e3o criadas as condi\u00e7\u00f5es indispens\u00e1veis \u00e0 vida animal, que \u00e9 a obra do quinto e sexto dias, come\u00e7ando pelas ordens inferiores e rematando pelas superiores. Digo superiores com respeito ao homem. Exceptuado este, o reino animal n\u00e3o obedece a nenhuma classifica\u00e7\u00e3o especial e tanto assim que onde o mandamento de Deus coloca em primeiro lugar os animais dom\u00e9sticos, em segundo os r\u00e9pteis e por \u00faltimo as feras, o relator mesmo tudo inverte, mencionando em primeiro lugar as feras, em segundo os animais dom\u00e9sticos e por \u00faltimo os r\u00e9pteis (42), mostrando com isto que uma classifica\u00e7\u00e3o como n\u00f3s a entendemos n\u00e3o \u00e9 absolutamente o objeto da revela\u00e7\u00e3o. A \u00fanica distribui\u00e7\u00e3o feita \u00e9 por ordem de habita\u00e7\u00f5es, isto \u00e9, dos meios em que esses animais est\u00e3o destinados a viver: primeiro s\u00e3o criados os habitantes das \u00e1guas, e os vol\u00e1teis, os animais que voam na expans\u00e3o dos c\u00e9us ou das \u00e1guas superiores; depois os animais da terra, que devem povoar o elemento seco, inclusive o homem, de sorte a ficar tudo compreendido nesta s\u00f3 express\u00e3o: \u201cE fez o Senhor os c\u00e9us, a terra e o mar, e tudo o que neles h\u00e1\u201d (43). O relator s\u00f3 distingue animais, cujo elemento \u00e9 a \u00e1gua, animais que voam no espa\u00e7o, e animais que andam ou se rojam sobre a terra. A ordem em que eles, respectivamente, s\u00e3o criados deve ser-lhe indiferente (44).<\/p>\n<p>A obra do quinto dia, em que s\u00e3o criados os habitantes das \u00e1guas e do ar, \u00e9 uma obra em si completa, fechando por isso o relat\u00f3rio com a declara\u00e7\u00e3o: \u201cE viu Deus que isso era bom\u201d (45), que o relator, como j\u00e1 o fizemos notar, omitiu com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 obra do segundo dia, que s\u00f3 ficou completa no terceiro, criando-se os tr\u00eas meios: os c\u00e9us, a terra e o mar.<\/p>\n<p class=\"textopeq\"><b>Figura 2 &#8211; Classifica\u00e7\u00e3o B\u00edblica dos Seres Viventes<br \/>\nTentativa de sistematiza\u00e7\u00e3o, a partir dos textos de G\u00eanesis, Lev\u00edtico e Deuteron\u00f4mio, feita pelos Editores<br \/>\n(constante da vers\u00e3o impressa).<\/b><\/p>\n<p>A obra do sexto dia, por\u00e9m, que compreende a cria\u00e7\u00e3o dos animais terrestres destinados a povoar o elemento seco \u00e9 dividida em dois atos distintos. Criados que s\u00e3o os animais dom\u00e9sticos, as feras, etc., o relator encerra o primeiro ato da cria\u00e7\u00e3o desse dia, declarando que \u201cDeus viu que isso era bom\u201d (46), passando a descrever ent\u00e3o o segundo ato, que compreende a cria\u00e7\u00e3o do homem. Posto que o homem seja, como os demais seres terrestres que o precederam, um ente animal, terreno &#8211; sendo por isso mesmo criado juntamente com aqueles num mesmo dia, e devendo com aqueles habitar e povoar o elemento seco, a terra &#8211; a revela\u00e7\u00e3o contudo n\u00e3o o confunde com os primeiros. Separa claramente a sua cria\u00e7\u00e3o da dos outros animais. Ao passo que todo o resto da cria\u00e7\u00e3o se opera prontamente a um simples fiat, a do homem \u00e9 precedida de delibera\u00e7\u00e3o e de c\u00e1lculo. O ser que agora vai ser criado deve ser de algum modo distinto dos demais, ele deve assemelhar-se nalguma coisa ao pr\u00f3prio Criador. \u201cFa\u00e7amos o homem \u00e0 nossa semelhan\u00e7a\u201d, disse Deus. Como? &#8211; \u201cDomine ele &#8230; sobre toda a terra!\u201d (47) Em vez de ser ele uma criatura sujeita como a restante, seja ele, \u00e0 semelhan\u00e7a de Deus, livre, e domine sobre toda ela! \u00c9 a representa\u00e7\u00e3o desta verdade moral, de excepcional alcance, mais um dos grandes objetivos do hexameron.<\/p>\n<p>A dignidade de senhor do mundo vis\u00edvel, recebida de Deus, explica tamb\u00e9m a raz\u00e3o por que o homem foi criado por \u00faltimo. Devendo ser criado para ser constitu\u00eddo senhor de toda a criatura, era mister que esta o precedesse na exist\u00eancia, como muito bem se exprimiu Gregorio de Nissa: \u201cN\u00e3o era conveniente que o senhor existisse antes daqueles a quem devia mandar. S\u00f3 depois que tudo estava preparado para receber o rei \u00e9 que este devia aparecer. Eis a raz\u00e3o por que o homem foi criado depois de todas as outras coisas; n\u00e3o foi colocado no fim por ser mais insignificante, mas porque, apenas criado, devia ser o rei de todos os seus s\u00faditos\u201d (48).<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o do homem, obedecendo ao plano premeditado de ser este constitu\u00eddo o dominador da Terra, naturalmente se afasta da dos outros animais, para se tornar um ato especial e distinto que torna o homem um ser moral respons\u00e1vel, fei\u00e7\u00e3o esta pela qual absolutamente n\u00e3o se deve confundir com aqueles. Como tal ele deve naturalmente ser dotado de todas as prerrogativas inerentes \u00e0s suas fun\u00e7\u00f5es: deve ser um ente livre, com capacidade suficiente para assumir a responsabilidade de seus atos, e de tudo isto for\u00e7osamente se deduz a sua organiza\u00e7\u00e3o superior.<\/p>\n<p>Feita a entrega ao homem, em termos formais, do dom\u00ednio desta terra, necess\u00e1rio se tornava prevenir tamb\u00e9m, por uma medida liberal, que ele exorbitasse de suas leg\u00edtimas fun\u00e7\u00f5es. Dominando sobre todas as criaturas, n\u00e3o devia estender esse dom\u00ednio sobre seus semelhantes. Deus, entregando-lhe o dom\u00ednio de tudo, reservava para Si o dom\u00ednio daqueles que havia feito \u00e0 Sua semelhan\u00e7a. O homem devia pois reconhecer sobre si a leg\u00edtima soberania d\u2019Aquele que o fizera livre, para servir a Deus inteligentemente, conforme os ditames de sua consci\u00eancia, de modo a n\u00e3o exceder as suas leg\u00edtimas atribui\u00e7\u00f5es exaltando-se a si pr\u00f3prio e sujeitando os seus semelhantes, que \u00e9 a egolatria e a equipara\u00e7\u00e3o de si pr\u00f3prio com Deus, que foi justamente a origem do pecado. Este reconhecimento devia ser um ato de sua pr\u00f3pria vontade; fornecendo-lhe Deus apenas o meio de manifest\u00e1-lo e de pratic\u00e1-lo na institui\u00e7\u00e3o do s\u00e1bado.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"textoLaranja\" align=\"center\" valign=\"TOP\">Artigo publicado na<a class=\"titulogrdazul\" href=\"http:\/\/dialogue.adventist.org\/\">Folha Criacionista 52<\/a><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A institui\u00e7\u00e3o do s\u00e1bado ou do repouso do s\u00e9timo dia tem sua justifica\u00e7\u00e3o no hexameron ou na obra de seis dias da cria\u00e7\u00e3o. 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