{"id":1185,"date":"2004-03-24T22:51:14","date_gmt":"2004-03-25T01:51:14","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacriacionista.org.br\/?p=1185"},"modified":"2022-10-27T00:08:39","modified_gmt":"2022-10-27T03:08:39","slug":"criacionismo-na-sbpc","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/scb.org.br\/revistacriacionista\/revistas-conteudo\/folha-70\/criacionismo-na-sbpc\/","title":{"rendered":"CRIACIONISMO NA SBPC?"},"content":{"rendered":"<p>Algo completamente inusitado ocorreu na publica\u00e7\u00e3o \u201cCi\u00eancia Hoje\u201d da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia \u2013 SBPC \u2013 em seu n\u00ba 200, vol. 34,de dezembro de 2003!<\/p>\n<p>Trata-se de um excelente artigo intitulado \u201cGirafas, Mariposas e Anacronismos Did\u00e1ticos\u201d, de autoria de Isabel Rebelo Roque, que corajosamente enfrentou a realidade do sil\u00eancio c\u00famplice dos livros did\u00e1ticos em nosso pa\u00eds quanto \u00e0s calorosas pol\u00eamicas que t\u00eam ocorrido na m\u00eddia cient\u00edfica internacional relativamente a exemplos apresentados como comprova\u00e7\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies \u2013 a explica\u00e7\u00e3o de Lamarck para o tamanho do pesco\u00e7o das girafas (e seu contraponto darwinista), e o da sele\u00e7\u00e3o natural em mariposas dos bosques da Inglaterra durante a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. Conforme explicitado na primeira p\u00e1gina do artigo, \u201cTais exemplos permitem uma completa discuss\u00e3o que envolve interesses e responsabilidades da comunidade cient\u00edfica sobre o modo como divulgar, ou deixar de divulgar seus estudos e conclus\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>A literatura criacionista, de longa data, tem desmascarado ambos os casos citados acima, deixando claro que para nada servem as explica\u00e7\u00f5es tendenciosas usualmente apresentadas nos livros textos como argumentos a favor da evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies. N\u00e3o obstante, coube \u00e0 autora do artigo despertar a aten\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios c\u00edrculos evolucionistas para a fal\u00e1cia desses exemplos, neste seu \u00f3timo artigo. E ainda mais, a autora aponta para outros aspectos nefastos para o pr\u00f3prio desenvolvimento da ci\u00eancia, decorrentes da perpetua\u00e7\u00e3o de mitos semelhantes a estes. S\u00e3o dela as palavras transcritas a seguir:<\/p>\n<p>Quando falamos em atualizar as informa\u00e7\u00f5es em materiais de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, cursos e livros did\u00e1ticos, falamos em p\u00f4r em evid\u00eancia um problema maior: o da \u201ccristaliza\u00e7\u00e3o\u201d de conceitos, em ci\u00eancia e em outros campos. Falamos, ainda, do problema cr\u00f4nico da n\u00e3o-ventila\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es a que professores e autores de material did\u00e1tico t\u00eam acesso \u2013 ambos t\u00eam forma\u00e7\u00e3o superior, mas em geral n\u00e3o s\u00e3o cientistas.<\/p>\n<p>Falamos do risco de apresentar a ci\u00eancia como inst\u00e2ncia sagrada e fechada, que permanece imut\u00e1vel, a salvo de reavalia\u00e7\u00f5es e, ao mesmo tempo (como revela a hist\u00f3ria das girafas), t\u00e3o vulner\u00e1vel a ponto de cair em \u201carmadilhas\u201d, pela perda da perspectiva hist\u00f3rica. Falamos, ainda, do comodismo de nos agarrarmos a modelos cient\u00edficos que seriam excelentes, n\u00e3o fossem eles inconsistentes como modelos.<\/p>\n<p>&#8230; A jornalista Judith Hooper lan\u00e7ou em 2002, na Inglaterra (e depois nos Estados Unidos), o livro \u201cOf Moths and Men\u201d [Sobre Mariposas e Homens]. A obra utiliza outro exemplo cl\u00e1ssico de evolu\u00e7\u00e3o para lan\u00e7ar luz sobre um tema antes restrito ao c\u00edrculo dos que defendem as id\u00e9ias criacionistas \u2013 mais modernamente os te\u00f3ricos do \u201cDesign Inteligente\u201d.<\/p>\n<p>&#8230; Nos livros did\u00e1ticos, esse exemplo costuma vir acompanhado da descri\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de experimentos do bi\u00f3logo Bernard Kettlewell, da Universidade de Oxford, na d\u00e9cada de 1950. Muitas vezes os livros trazem fotografias que registram os experimentos (ou que reproduzem os registros originais), mostrando mariposas \u201cBiston\u201d claras e escuras em repouso sobre troncos de \u00e1rvores. Os livros relatam que Kettlewell, nos experimentos, coletou mariposas com os dois padr\u00f5es de cor e os liberou em ambientes controlados onde havia troncos tamb\u00e9m com diferentes colora\u00e7\u00f5es. Ao recapturar as sobreviventes, ele teria constatado o que j\u00e1 se esperava: o \u00edndice de sobreviv\u00eancia era diretamente relacionado ao padr\u00e3o de cor dos troncos.<\/p>\n<p>Tudo estaria perfeito, n\u00e3o fossem, como no caso das girafas, alguns sen\u00f5es. O primeiro foi a descoberta de que os experimentos n\u00e3o transcorreram exatamente como foram descritos. Houve um \u201cempurr\u00e3ozinho\u201d, pois as mariposas n\u00e3o estavam vivas: foram coladas aos troncos. O segundo \u00e9 que o comportamento das mariposas Biston na natureza n\u00e3o se encaixa t\u00e3o perfeitamente no modelo descrito. O terceiro \u00e9 que a rela\u00e7\u00e3o \u201cpredom\u00ednio de uma cor \/ grau de polui\u00e7\u00e3o do ar\u201d n\u00e3o se manteve como o esperado.<\/p>\n<p>O livro de Hooper n\u00e3o \u00e9 o primeiro a \u201cdevassar\u201d o caso Kettlewell. H\u00e1 cinco anos, por exemplo, Michael Majerus fez o mesmo em \u201cMelanism: Evolution in Action\u201d (Melanismo: Evolu\u00e7\u00e3o em A\u00e7\u00e3o). Em resenha sobre esse livro, publicada na revista \u201cNature&#8221; (396, p. 35, 1998), Jerry Coyne, do Departamento de Ecologia e Evolu\u00e7\u00e3o da Universidade de Chicago, compara a decep\u00e7\u00e3o diante da verdade sobre os experimentos de Kettlewell ao que sentiu quando crian\u00e7a ao saber que Papai Noel n\u00e3o existia.<\/p>\n<p>Segundo Coyne, o livro de Majerus \u00e9 o primeiro a reunir os pontos critic\u00e1veis no trabalho de Kettlewell. O mais grave \u00e9 que as mariposas Biston, em condi\u00e7\u00f5es naturais, provavelmente n\u00e3o repousam sobre troncos \u2013 em mais de 40 anos de estudos sobre os seus h\u00e1bitos, apenas duas foram vistas fazendo isso. O local preferido continua um mist\u00e9rio, mas acredita-se que seja o alto das copas das \u00e1rvores. S\u00f3 isso, afirma Coyne, invalidaria os experimentos, j\u00e1 que colocar as mariposas sobre os troncos as tornaria altamente vis\u00edvies, o que aumentaria artificialmente a preda\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, Kettlewell exp\u00f4s as mariposas durante o dia, quando em geral elas escolhem locais de repouso \u00e0 noite.<\/p>\n<p>Mas outro fator compromete a hist\u00f3ria: na verdade, o novo aumento na propor\u00e7\u00e3o da variedade clara ocorreu bem antes da recoloniza\u00e7\u00e3o dos troncos pelos l\u00edquens (que supostamente favoreceriam a camuflagem das mariposas claras). E mais: o aumento e depois a redu\u00e7\u00e3o de mariposas escuras tamb\u00e9m ocorreram em \u00e1reas industriais dos Estados Unidos, onde, por\u00e9m, n\u00e3o houve altera\u00e7\u00e3o na incid\u00eancia de l\u00edquens \u2013 \u00e9 o que relativiza bastante o papel destes na hist\u00f3ria toda.<\/p>\n<p>O artigo conclui ent\u00e3o com o t\u00f3pico \u201cE agora: descartar ou n\u00e3o o exemplo?\u201d, do qual transcrevemos o seguinte trecho:<\/p>\n<p>Majerus, em seu livro, admite as in\u00fameras falhas do modelo, mas ainda assim o considera didaticamente \u00fatil. Jerry Coyne, entretanto, pondera que esse n\u00e3o \u00e9 o melhor exemplo a ser usado em sala de aula, devido a seus pontos fracos. Essa posi\u00e7\u00e3o fez de Coyne, \u00e0 sua revelia, uma \u201carma\u201d dos criacionistas contra a teoria da evolu\u00e7\u00e3o. Ele sugere como mais apropriado o trabalho mais recente dos ec\u00f3logos Peter e Rosemary Grant sobre a evolu\u00e7\u00e3o do bico dos tentilh\u00f5es das ilhas Gal\u00e1pagos \u2013 tema de um livro de leitura f\u00e1cil e agrad\u00e1vel, j\u00e1 traduzido para o portugu\u00eas: \u201cO bico do tentilh\u00e3o: uma hist\u00f3ria da evolu\u00e7\u00e3o no nosso tempo\u201d (Rocco, 1995), do jornalista Jonathan Weiner.<\/p>\n<p>O debate sobre usar ou n\u00e3o o exemplo das mariposas para fins did\u00e1ticos est\u00e1 longe de uma solu\u00e7\u00e3o f\u00e1cil. O bi\u00f3logo evolucionista David Rudge, da Universidade Western Michigan, escreveu que manter a hist\u00f3ria no espa\u00e7o escolar teria in\u00fameras vantagens. Enquanto Coyne diz que suas contradi\u00e7\u00f5es inviabilizam o uso pedag\u00f3gico. Rudge acredita que ela constitui excelente ve\u00edculo para apresentar a estudantes o conceito de sele\u00e7\u00e3o natural. Para ele, expor as discrep\u00e2ncias envolvidas no assunto permitiria mostrar a natureza da ci\u00eancia como um processo.<\/p>\n<p>Novamente trata-se de uma quest\u00e3o delicada, na qual est\u00e3o em jogo aspectos como corporativismo da comunidade cient\u00edfica, necessidade de controle, manipula\u00e7\u00e3o, de um lado, e desinforma\u00e7\u00e3o, de outro. Como no exemplo da girafa \u2013 perfeito, did\u00e1tico, mas falso \u2013, recorrer \u00e0s mariposas de Manchester \u00e9 tentador: permite trabalhar de modo simples, conceitos complexos como evolu\u00e7\u00e3o e sele\u00e7\u00e3o natural. Mas insistir neles \u00e9 falsear informa\u00e7\u00f5es e, de quebra, passar a alunos e professores uma id\u00e9ia dogm\u00e1tica e nem um pouco \u00e9tica da ci\u00eancia. A ci\u00eancia n\u00e3o tem de ser ensinada como a arte do \u201cjeitinho\u201d, mas como um campo do conhecimento sujeito a falhas, aperfei\u00e7oamentos e inesperadas complexidades diante do que parecia simples e \u201cdid\u00e1tico\u201d.<\/p>\n<p>Parab\u00e9ns \u00e0 autora pela coragem de enfrentar as \u201cvacas sagradas\u201d do evolucionismo!<\/p>\n<p>\u00c9 interessante observar que, no n\u00famero seguinte da revista \u201cCi\u00eancia Hoje\u201d foram apresentadas duas cartas de leitores sobre o assunto versado no artigo sobre \u201cGirafas, Mariposas e Anacronismos Did\u00e1ticos\u201d.<\/p>\n<p>\u00b7 Uma das cartas tentou se contrapor \u00e0 cr\u00edtica feita aos anacronismos did\u00e1ticos, mencionando que um livro em portugu\u00eas abriu um \u201cbox\u201d discutindo a hist\u00f3ria das mariposas, e outro \u201cbox\u201d discutindo a vantagem seletiva do pesco\u00e7o da girafa. Na mesma carta foram feitas men\u00e7\u00f5es a cientistas que trabalharam sobre o tema das mariposas, que estariam defendendo o indefens\u00e1vel&#8230; Neste caso, a pr\u00f3pria reda\u00e7\u00e3o da revista incumbiu-se de se contrapor a essa manifesta\u00e7\u00e3o, deixando claro que ambos os exemplos continuam sendo pol\u00eamicos, e citando afirma\u00e7\u00f5es de Stephen J. Gould e outros cientistas de peso convergentes com o ponto de vista esposado pela autora do artigo em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00b7 A segunda carta foi de autoria de En\u00e9zio E. de Almeida Filho, do N\u00facleo de Design Inteligente, autor de um dos artigos que constam neste n\u00famero da Revista Criacionista, no qual o mesmo assunto foi tratado. Achamos bastante \u00fatil transcrever esta carta, para conhecimento de nossos leitores.<\/p>\n<p>\u201cO tema abordado por Isabel Rebelo Roque em \u201cGirafas, mariposas e anacronismos did\u00e1ticos\u201d na edi\u00e7\u00e3o 200 presta um servi\u00e7o para a urgent\u00edssima corre\u00e7\u00e3o e atualiza\u00e7\u00e3o de nossos livros did\u00e1ticos nos ensinos fundamental, m\u00e9dio e superior. Em 1980, Stephen Jay Gould teve a ousadia de declarar (&#8230;) que o \u2018neodarwinismo\u2019 era uma \u2018teoria efetivamente morta\u2019 mas que persistia como \u2018ortodoxia\u2019 nos livros-textos de biologia.<\/p>\n<p>Por essa postura \u00e9tica e cient\u00edfica, foi e \u00e9 desancado at\u00e9 hoje por muitos luminares como [Richard] Dawkins. Quando cursava o mestrado em hist\u00f3ria da ci\u00eancia na PUC-SP em 1998, pretendia abordar na minha disserta\u00e7\u00e3o cinco \u2018anacronismos\u2019 encontrados nos melhores livros did\u00e1ticos de autores brasileiros e quais os interesses \u2018velados\u2019 da comunidade cient\u00edfica pela omiss\u00e3o da divulga\u00e7\u00e3o dos estudos e conclus\u00f5es que contrariam o atual paradigma. Durante a elabora\u00e7\u00e3o da pesquisa, notifiquei os autores sobre a exist\u00eancia dessas distor\u00e7\u00f5es e at\u00e9 sobre o uso de duas fraudes: os embri\u00f5es de Haeckel e a sele\u00e7\u00e3o natural em mariposas Biston betularia. A maioria dos autores n\u00e3o estava atualizada [quanto a isso] e os poucos que sabiam, mais por raz\u00f5es ideol\u00f3gicas do que cient\u00edficas, preferiram varrer aquelas anomalias para debaixo do tapete epistemol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Falseando as informa\u00e7\u00f5es, com ou sem conhecimento de causa, passa aos professores e alunos n\u00e3o s\u00f3 uma id\u00e9ia dogm\u00e1tica mas n\u00e3o \u00e9tica de ci\u00eancia: a manuten\u00e7\u00e3o de evid\u00eancias distorcidas para apoiar uma teoria que h\u00e1 muito tempo deveria ter sido reestruturada ou descartada.<\/p>\n<p>Se a ci\u00eancia \u00e9 um processo de conhecimento que sempre se corrige, por que os nossos melhores livros did\u00e1ticos ainda veiculam essas fraudes [uma secular \u2013 os embri\u00f5es de Haeckel] e \u2018anacronismos\u2019? Qual \u00e9 o motivo que impede a veicula\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e atualizada desses conhecimentos? Em ci\u00eancia n\u00e3o devemos seguir as evid\u00eancias onde quer que elas v\u00e3o dar? Com a palavra a Semtec\/MEC, que j\u00e1 foi notificada documentalmente por este autor a respeito dessa grave e inusitada situa\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Dentro deste contexto, vale ressaltar que a Sociedade Criacionista Brasileira publicou a tradu\u00e7\u00e3o do livro \u201cEvolu\u00e7\u00e3o \u2013 Um Livro-texto Cr\u00edtico\u201d, premiado na Alemanha e no Brasil, que constitui uma excelente contribui\u00e7\u00e3o para a apresenta\u00e7\u00e3o equilibrada de temas como os que foram tratados na revista \u201cCi\u00eancia Hoje\u201d que envolvem a controv\u00e9rsia entre o Criacionismo e o Evolucionismo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Algo completamente inusitado ocorreu na publica\u00e7\u00e3o \u201cCi\u00eancia Hoje\u201d da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia \u2013 SBPC \u2013 em seu n\u00ba 200, vol. 34,de dezembro de 2003! 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