{"id":324,"date":"2014-02-02T11:32:07","date_gmt":"2014-02-02T13:32:07","guid":{"rendered":"https:\/\/filosofiadasorigens.scb.org.br\/2014\/02\/02\/o-diluvio-apenas-uma-catastrofe-local\/"},"modified":"2022-10-30T18:40:02","modified_gmt":"2022-10-30T21:40:02","slug":"o-diluvio-apenas-uma-catastrofe-local","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/scb.org.br\/filosofiadasorigens\/artigos\/criacionismo\/o-diluvio-apenas-uma-catastrofe-local\/","title":{"rendered":"O Dil\u00favio: Apenas uma Cat\u00e1strofe Local?"},"content":{"rendered":"<p class=\"textopeq\" style=\"text-align: justify;\"><strong>William H. Shea<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span class=\"textopeq\">(M.D., Loma Linda University; Ph.D., Universidade de Michigan) \u00e9 diretor-associado do Instituto de Pesquisa B\u00edblica na Associa\u00e7\u00e3o Geral. Seu endere\u00e7o: 12501 Old Columbia Pike, Silver Spring, MD 20904-6600; E.U.A.<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Um exame da evid\u00eancia arqueol\u00f3gica e das tradi\u00e7\u00f5es lingu\u00edsticas e liter\u00e1rias mostra que a simples inunda\u00e7\u00e3o de um vale da Mesopot\u00e2mia n\u00e3o pode explicar adequadamente o dil\u00favio b\u00edblico.<\/em><\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" alignright size-full wp-image-320\" src=\"https:\/\/filosofiadasorigens.org.br\/wp-content\/uploads\/sites\/12\/2014\/02\/diluvio.jpg\" border=\"1\" hspace=\"5\" vspace=\"5\" width=\"228\" height=\"153\" align=\"right\" style=\"float: right; border: 1px solid black; margin: 5px;\" \/>Criacionistas e evolucionistas discordam quanto ao Dil\u00favio. Os criacionistas argumentam que a B\u00edblia \u00e9 um documento divinamente inspirado e que seu registro do Dil\u00favio descreve um acontecimento hist\u00f3rico real, um dil\u00favio universal. Os evolucionistas respondem \u00e0 narrativa b\u00edblica de diversos modos. Alguns a rejeitam como n\u00e3o hist\u00f3rica e indigna de considera\u00e7\u00e3o s\u00e9ria. Outros, contudo, d\u00e3o uma explica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o concorda com a opini\u00e3o criacionista. Sugerem que houve um acontecimento hist\u00f3rico que fornece a base para a hist\u00f3ria, mas que a hist\u00f3ria tem sido muito exagerada em rela\u00e7\u00e3o ao acontecimento original. Pensam que houve uma inunda\u00e7\u00e3o local grave no rio Tigre ou no Eufrates (ou em ambos), e que essa inunda\u00e7\u00e3o foi ampliada de tal modo que quando o relato chegou ao escritor ou escritores b\u00edblicos, foi considerado um dil\u00favio universal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong style=\"line-height: 1.3em;\">A teoria de uma inunda\u00e7\u00e3o local<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">Esta teoria come\u00e7ou com um arque\u00f3logo. Sir Leonard Woolley estava escavando em Ur, no sul do Iraque, no final da d\u00e9cada de 1920, quando numa trincheira particularmente profunda seus oper\u00e1rios chegaram a um dep\u00f3sito est\u00e9ril de argila sem mais nenhum tra\u00e7o de civiliza\u00e7\u00e3o. Fez com que os oper\u00e1rios continuassem a cavar atrav\u00e9s desse sedimento. Mais no fundo chegaram a uma nova camada de ocupa\u00e7\u00e3o. De p\u00e9 na trincheira com um dos oper\u00e1rios e sua esposa, ele perguntou: \u201cVoc\u00eas sabem o que \u00e9 isso, n\u00e3o sabem?\u201d O oper\u00e1rio olhou surpreso, mas a esposa prontamente respondeu: \u201c\u00c9 o dil\u00favio de No\u00e9!\u201d E assim nasceu a teoria de uma inunda\u00e7\u00e3o local na Mesopot\u00e2mia como a explica\u00e7\u00e3o do dil\u00favio b\u00edblico.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois da Segunda Guerra Mundial, Sir Max Mallowan, cavando em Nimrud (Calah), prop\u00f4s uma revis\u00e3o da teoria de Woolley. Ele queria atribuir o dil\u00favio b\u00edblico a um n\u00edvel diferente de dep\u00f3sito aluvial em outros lugares na Mesopot\u00e2mia. Ao passo que o dil\u00favio de Woolley tivesse sido fixado por volta de 3500 a.C. na maneira convencional de data\u00e7\u00e3o arqueol\u00f3gica, o professor Mallowan prop\u00f4s a data de 2900 a.C. \u00e0 camada que deu origem \u00e0s hist\u00f3rias na Mesopot\u00e2mia, e depois na B\u00edblia, de um dil\u00favio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nosso prop\u00f3sito aqui n\u00e3o \u00e9 avaliar ou endossar essas datas arqueol\u00f3gicas, mas us\u00e1-las como base para compara\u00e7\u00e3o. A teoria de uma inunda\u00e7\u00e3o local levanta muitos problemas, os quais podem ser examinados de tr\u00eas perspectivas diferentes: arqueologia, lingu\u00edstica e tradi\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias. Tal exame vai determinar se a hist\u00f3ria b\u00edblica do dil\u00favio remonta \u00e0 hist\u00f3ria da inunda\u00e7\u00e3o local de um rio na Mesopot\u00e2mia, ou \u00e0 B\u00edblia como o registro hist\u00f3rico de um dil\u00favio universal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" alignright size-full wp-image-321\" src=\"https:\/\/filosofiadasorigens.org.br\/wp-content\/uploads\/sites\/12\/2014\/02\/diluvio1.gif\" border=\"0\" hspace=\"5\" vspace=\"5\" width=\"212\" height=\"336\" align=\"right\" style=\"float: right; margin: 5px;\" \/><span class=\"txtazulneg\">O teste da arqueologia<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tratando-se da arqueologia, h\u00e1 dificuldade enorme em tentar achar o estrato correto em v\u00e1rias cidades para fazer a liga\u00e7\u00e3o com o dil\u00favio b\u00edblico. A raz\u00e3o \u00e9 que h\u00e1 diferentes n\u00edveis da inunda\u00e7\u00e3o em diferentes cidades da Mesopot\u00e2mia, e outras cidades sem nenhum sinal de n\u00edveis de inunda\u00e7\u00e3o. Assim o quadro das inunda\u00e7\u00f5es locais na Mesopot\u00e2mia \u00e9 como uma colcha-de-retalhos na qual muitos dos retalhos diferem uns dos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considere os dep\u00f3sitos do per\u00edodo que Woolley preferiu como fornecendo uma explica\u00e7\u00e3o para o Dil\u00favio. Eles foram encontrados em apenas dois lugares: Ur e N\u00ednive. As diferen\u00e7as entre esses dois locais deviam ser notadas. N\u00ednive fica sobre o Tigre, no norte do Iraque. Ur est\u00e1 localizada num canal que sai do Eufrates, no sul do Iraque. Assim, essas duas cidades est\u00e3o em extremos opostos do pa\u00eds e ficam sobre rios diferentes. Nenhum dos outros lugares intermedi\u00e1rios que foram escavados produziu o mesmo n\u00edvel de \u201cinunda\u00e7\u00e3o\u201d. O trabalho de Woolley mostra que a inunda\u00e7\u00e3o nem cobriu toda a cidade de Ur. Os habitantes locais podem ter considerado a inunda\u00e7\u00e3o como algo s\u00e9rio, mas nem de longe foi na escala que podia ter sido ampliada em propor\u00e7\u00f5es universais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bem, que tal o n\u00edvel da inunda\u00e7\u00e3o fixada em 2900 a.C.? Aqui pelo menos temos que ver com quatro cidades: Kish, Shuruppak, Uruk (a Ereque b\u00edblica) e Lagash. Kish, dessas quatro cidades, \u00e9 a que fica mais ao norte, perto de Babil\u00f4nia. Shuruppak estava localizada num canal, no centro-sul da Mesopot\u00e2mia. \u00c9 famosa na tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria como a cidade da qual Atra-hasis, o her\u00f3i do dil\u00favio, saiu. Uruk est\u00e1 situada no mesmo canal que Shuruppak, mas bem mais para o sul. Lagash est\u00e1 situada num canal mais para o leste, no sul da Mesopot\u00e2mia. A camada de solo est\u00e9ril de Lagash, contudo, talvez n\u00e3o tenha vindo da inunda\u00e7\u00e3o de um rio local ou de um canal, mas sim da funda\u00e7\u00e3o de um dos templos de Lagash, de acordo com Andr\u00e9 Parrot, que escavou Telloh em 1930 e 1931.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As escava\u00e7\u00f5es em Kish levaram a quatro n\u00edveis diferentes de argila, e n\u00e3o um. Estendiam-se sobre um per\u00edodo de quatro s\u00e9culos, segundo os escavadores. O mais antigo foi fixado por volta de 3300 a.C., o \u00faltimo, em 2900 a.C. O estrato superior tinha cerca de 30 cm de espessura. A quest\u00e3o ent\u00e3o \u00e9: qual desses quatro n\u00edveis locais de inunda\u00e7\u00e3o devia ser escolhido como a base para construir uma lenda de dil\u00favio para o texto b\u00edblico? Nenhum deles parece ser t\u00e3o importante, e a multiplicidade de camadas diminui o entusiasmo em identificar qualquer deles com a hist\u00f3ria b\u00edblica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os outros dois lugares poderiam parecer candidatos um pouco mais leg\u00edtimos. Shuruppak, a moderna Tell Fara, foi escavada por Eric Schmidt. Em suas escava\u00e7\u00f5es de 1930 e 1931, Schmidt achou um dep\u00f3sito aluvial da espessura de 60 cm, que datava do come\u00e7o do terceiro mil\u00eanio a.C. Uruk estava localizada no mesmo canal, mas a uma boa dist\u00e2ncia mais para o sul. Julius Jordan em suas escava\u00e7\u00f5es de 1929 achou a\u00ed um estrato est\u00e9ril de um metro e meio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, dos quatro lugares envolvidos nesse per\u00edodo de tempo, um tinha n\u00edveis m\u00faltiplos de sedimento de inunda\u00e7\u00e3o local; um n\u00e3o tinha sedimento algum de inunda\u00e7\u00e3o; e dois tinham dois n\u00edveis de sedimento. Isso se compara com os dois lugares do per\u00edodo anterior, que tamb\u00e9m tinham sedimentos. Assim, umas compensam as outras, as inunda\u00e7\u00f5es anteriores e posteriores. As inunda\u00e7\u00f5es continuam at\u00e9 os tempos modernos. Houve uma grande inunda\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o central do Iraque, em 1948.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 interessante observar que a maior parte desses lugares foi escavada mais ou menos ao mesmo tempo, entre 1929 e 1932. Assim, a hist\u00f3ria local do dil\u00favio parece ser uma ideia em voga por volta de 1930, motivada pela sugest\u00e3o de Woolley.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o caso \u00e9 considerado como um todo, contudo, h\u00e1 muito pouca prova arqueol\u00f3gica para tal teoria. Os sedimentos de inunda\u00e7\u00f5es junto aos rios eram irregulares, ora afetando uma cidade, e n\u00e3o outra, nas proximidades. Dos seis lugares estudados deste ponto de vista, somente um deles era situado sobre um grande rio: N\u00ednive, sobre o Tigre. O resto era situado sobre canais que sa\u00edam dos rios, e n\u00e3o sobre os rios mesmos. Assim, devia-se provavelmente chamar essa teoria, a teoria do Dil\u00favio oriunda de canais na Mesopot\u00e2mia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"txtazulneg\" style=\"text-align: justify;\"><strong>O teste da lingu\u00edstica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">O povo que vivia nessa \u00e1rea durante essas inunda\u00e7\u00f5es fluviais, estava bem familiarizado com elas e as descreviam de v\u00e1rios modos. Tinham, contudo, um outro termo para o Grande Dil\u00favio. Esse termo era abubu, em ac\u00e1dio. Este termo foi usado para o Grande Dil\u00favio atrav\u00e9s do qual o her\u00f3i do Dil\u00favio salvou sua fam\u00edlia por meio da arca. O termo nunca foi usado para inunda\u00e7\u00f5es locais. Foi empregado de um outro modo, por\u00e9m, para descrever o ataque das hordas ass\u00edrias sob certos reis. Nestes casos, o ex\u00e9rcito ass\u00edrio esmagava seus inimigos como o abubu. O paralelo \u00e9 bem mais v\u00e1lido quando comparado com o Grande Dil\u00favio da Mesopot\u00e2mia do que com uma inunda\u00e7\u00e3o de um rio local. \u00c9 assim que os reis ass\u00edrios queriam dizer qu\u00e3o fortes eles eram.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">O hebraico b\u00edblico faz algo semelhante. Tem um termo especial para o dil\u00favio de No\u00e9, e essa palavra \u00e9 mabbul. O termo \u00e9 usado em apenas dois lugares, em G\u00eanesis 6-9 e Salmo 29. O Salmo 29 diz que \u201cO Senhor Se assentou sobre o dil\u00favio\u201d (v. 10). Isto quer dizer o dil\u00favio de No\u00e9, n\u00e3o apenas qualquer inunda\u00e7\u00e3o de um rio local. Este \u00e9 um salmo que descreve a tempestade do poder divino. Baal n\u00e3o \u00e9 o deus da tempestade. Jeov\u00e1 \u00e9, e Ele controla os elementos da Natureza segundo Seu prop\u00f3sito. Isto era verdade mesmo durante o maior cataclisma que este mundo jamais vira no passado, o dil\u00favio de No\u00e9. Do mesmo modo que os reis da Ass\u00edria comparavam o poderio de seu ex\u00e9rcito com a maior pot\u00eancia jamais vista na Natureza, assim Deus compara Seu poder sobre a Natureza com a maior demonstra\u00e7\u00e3o de Seu poder jamais vista na Terra.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">Pode haver uma rela\u00e7\u00e3o entre os dois termos. N\u00e3o \u00e9 certo se o da l\u00edngua sem\u00edtica oriental acrescentou as consoantes quando foi adotado pelo sem\u00edtico ocidental, ou vice-versa, se o termo caminhou na dire\u00e7\u00e3o oposta. Isso d\u00e1 o termo composto de (m)abubu(l). A etimologia do termo \u00e9 obscura em ambas as l\u00ednguas, mas aquilo a que se aplica \u00e9 eminentemente claro: Era empregado somente para o Grande Dil\u00favio nas duas l\u00ednguas, e n\u00e3o era usado para nenhuma inunda\u00e7\u00e3o no vale de um rio local.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" alignright size-full wp-image-322\" src=\"https:\/\/filosofiadasorigens.org.br\/wp-content\/uploads\/sites\/12\/2014\/02\/diluvio2.gif\" border=\"0\" hspace=\"5\" vspace=\"5\" width=\"381\" height=\"259\" align=\"right\" style=\"float: right; margin: 5px;\" \/><span class=\"txtazulneg\">O teste de tradi\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As hist\u00f3rias do Dil\u00favio t\u00eam dois elementos principais. Um trata da extens\u00e3o do Dil\u00favio em termos de descri\u00e7\u00e3o; o outro trata dos resultados. Em ambos os casos, nas duas culturas e em ambas as l\u00ednguas, a diferen\u00e7a entre o Grande Dil\u00favio e as inunda\u00e7\u00f5es locais era bem reconhecida. O primeiro aspecto disso \u00e9 a quest\u00e3o da terminologia inclusiva, como se v\u00ea na hist\u00f3ria do dil\u00favio b\u00edblico. A quest\u00e3o aqui \u00e9: Qu\u00e3o inclusiva era aquela l\u00edngua? Gerhard Hasel tratou deste assunto em seu artigo \u201cThe Biblical View of the Extent of the Flood\u201d (ver \u201cBibliografia\u201d). Como Hasel assinala, a frase \u201ca face de toda a terra\u201d \u00e9 usada 46 vezes em G\u00eanesis 6-9. A frase \u201ctoda carne\u201d \u00e9 usada 13 vezes. A frase \u201ctoda criatura vivente\u201d \u00e9 usada tr\u00eas vezes. E G\u00eanesis 7:19 reza \u201cdebaixo do c\u00e9u\u201d. Estas frases referem-se \u00e0 extens\u00e3o do Dil\u00favio. \u00c9 verdade que no hebraico o termo todo nem sempre significa 100 por cento, mas aqui em G\u00eanesis 6-9, onde \u00e9 apoiado pela multiplicidade de tais express\u00f5es, certamente devia significar isto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vers\u00e3o do Dil\u00favio que se acha no poema de Gilgam\u00e9s diz o mesmo: \u201ctoda a humanidade virou barro\u201d (XI:133). Utnapishtim, o her\u00f3i do dil\u00favio, abriu a janela de sua arca e contemplou a terra seca. \u00c9 tamb\u00e9m interessante notar que n\u00e3o foi a subida dos rios por causa da fus\u00e3o da neve na Anat\u00f3lia que causou o dil\u00favio. Segundo Utnapishtim, foi a tempestade que causou o dil\u00favio; uma tempestade vinda das nuvens, acompanhada de rel\u00e2mpagos no c\u00e9u. Quando prestes a testar as possibilidades de abandonar a arca, ele tamb\u00e9m soltou aves, como No\u00e9. Os primeiros dois p\u00e1ssaros, uma pomba e uma andorinha, voltaram \u00e0 arca porque \u201cnenhum lugar de pouso era vis\u00edvel\u201d (XI:148, 151). N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida aqui sobre a extens\u00e3o vasta do dil\u00favio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A parte sobre a tempestade que provocou o dil\u00favio falta no tablete do G\u00eanesis sum\u00e9rio de Eridu e do \u00e9pico de Atra-hasis. Mas as partes que sobreviveram nos contam da seq\u00fcela no pante\u00e3o. Uma disputa extraordin\u00e1ria surgiu entre os deuses. A maior parte deles estava arrependida de ter trazido o dil\u00favio e destru\u00eddo a humanidade. Enlil, por\u00e9m, o primeiro ministro entre os deuses e o maior culpado de causar o dil\u00favio, teve a rea\u00e7\u00e3o oposta. Ele descobriu que algumas pessoas tinham escapado do dil\u00favio e sobrevivido. Ficou furioso. O prop\u00f3sito do dil\u00favio era acabar com toda a humanidade, e o fato de que alguns escaparam era absolutamente contr\u00e1rio a seu des\u00edgnio. Da\u00ed seu furor. Ele tinha sido enganado por Enki (Ea), o deus da sabedoria, que dissera ao her\u00f3i do dil\u00favio que constru\u00edsse um barco e recolhesse a bordo sua fam\u00edlia e os animais para escapar ao dil\u00favio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parte do di\u00e1logo pode ser recuperada do \u00e9pico de Atra-hasis. A deusa que tinha dado forma \u00e0 humanidade lamentava a decis\u00e3o de trazer o dil\u00favio: \u201cNa assembl\u00e9ia dos deuses, como comandei eu, junto com eles, destrui\u00e7\u00e3o total?\u201d Ela lamenta que Anu, o deus principal, concordou com essa decis\u00e3o: \u201cAquele que n\u00e3o considerou mas causou o dil\u00favio e consignou os povos \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o?\u201d Uma vez mais pergunta aonde foram os deuses: \u201cAqueles que n\u00e3o consideraram, mas causaram um dil\u00favio e consignaram os povos \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o? V\u00f3s decidistes sobre destrui\u00e7\u00e3o total\u201d (Atra-hasis, p\u00e1gs. 95, 97, 99). A ira de Enlil \u00e9 revelada quando ele indaga: \u201cOnde escapou a vida? Como sobreviveu o homem \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o?\u201d (Idem, p\u00e1g. 101). Enki tem de confessar que foi ele o \u201crespons\u00e1vel por salvar vidas\u201d. A mesma id\u00e9ia \u00e9 expressa pela informa\u00e7\u00e3o que Enki deu a Ziusudra, o her\u00f3i do dil\u00favio na vers\u00e3o sum\u00e9ria. Ao adverti-lo para se preparar para o dil\u00favio iminente ele disse: \u201cA decis\u00e3o de que a humanidade devesse ser destru\u00edda foi feita; um veredito, uma ordem pela assembl\u00e9ia [divina], n\u00e3o pode ser revogada\u201d (Journal of Biblical Literature 100 [1981]: 523).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De tudo isto se infere que era inten\u00e7\u00e3o de Enlil destruir toda a humanidade com o dil\u00favio. Os deuses na assembl\u00e9ia votaram a favor, mas se arrependeram depois. Mas quando uma parte da humanidade escapou, o intento de Enlil foi frustrado e ele irou-se porque tinha resolvido destruir todo ser humano, e foi somente porque Enki o enganou que algumas pessoas escaparam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A narrativa b\u00edblica do Dil\u00favio se aproxima desta, mas faz uma distin\u00e7\u00e3o moral que n\u00e3o consta na vers\u00e3o mesopot\u00e2mica. Deus estava aborrecido com a impiedade da humanidade, mas decidiu salvar os poucos justos por meio da arca de No\u00e9 (G\u00eanesis 6:4-8). N\u00e3o se poderia fazer isto, nem na escala b\u00edblica, nem na de Babil\u00f4nia, somente com uma inunda\u00e7\u00e3o local. Requer-se um dil\u00favio universal para se destruir a humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"txtazulneg\" style=\"text-align: justify;\"><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" alignright size-full wp-image-323\" src=\"https:\/\/filosofiadasorigens.org.br\/wp-content\/uploads\/sites\/12\/2014\/02\/diluvio3.jpg\" border=\"1\" width=\"248\" height=\"210\" align=\"right\" style=\"float: right; border: 1px solid black;\" \/>Inunda\u00e7\u00f5es em Marte?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como poderia Marte ter um dil\u00favio? Contudo, como se poderia explicar a presen\u00e7a de vales ligados entre si, marcas gigantescas de eros\u00e3o, paredes de crateras desgastadas e canais enormes? Parece que uma inunda\u00e7\u00e3o catastr\u00f3fica ocorreu outrora no \u201cplaneta vermelho\u201d, com rios gigantescos de mais de 100 km de largura, talvez com 500 metros de profundidade, com \u00e1gua correndo com a velocidade de at\u00e9 200 km por hora.\u00a0<sup><span class=\"superscript\">1<\/span><\/sup> Marte poderia ter um oceano que continha mais \u00e1gua que o Caribe e o Mediterr\u00e2neo juntos. Calculou-se que as inunda\u00e7\u00f5es poderiam ter enchido o oceano de Marte em poucas semanas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De onde veio a \u00e1gua e onde est\u00e1 agora? A \u00e1gua parece ter jorrado com for\u00e7a de grandes fraturas na superf\u00edcie de Marte, como as \u201cfontes do abismo\u201d. Por que jorraram subitamente e para onde foram, s\u00e3o perguntas sem resposta. Mas a evid\u00eancia de inunda\u00e7\u00e3o l\u00e1 est\u00e1. Pode-se ter uma ideia do fen\u00f4meno visitando o Channeled Scabland do leste do Estado de Washington, que tamb\u00e9m foi formado por uma inunda\u00e7\u00e3o catastr\u00f3fica sobre um terreno vulc\u00e2nico.\u00a0<sup><span class=\"superscript\">2<\/span><\/sup> Talvez umas das sondas enviadas a Marte revelar\u00e1 alguns dos mist\u00e9rios das inunda\u00e7\u00f5es marcianas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Notas Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<ol>\n<li><span style=\"line-height: 1.3em;\">V. R. Baker, \u201cThe Spokane Flood Controversy and the Martian Outflow Channels,\u201d Science 202 (1979), pp. 1249-1256.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"line-height: 1.3em;\">V. R. Baker e outros, \u201cAncient Oceans, Ice Sheets and the Hydrological Cycle on Mars,\u201d Nature 352 (1991), pp. 589-594.<\/span><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"txtazulneg\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Evid\u00eancia geol\u00f3gica do dil\u00favio de G\u00eanesis<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um acontecimento como o dil\u00favio narrado em G\u00eanesis haveria de deixar evid\u00eancia significativa nas camadas de rochas da terra. Quando essas camadas s\u00e3o examinadas, um n\u00famero de descobertas importantes sugere uma interpreta\u00e7\u00e3o na base de um dil\u00favio. Durante um dil\u00favio universal, havia-se de esperar atividade catastr\u00f3fica t\u00e3o r\u00e1pida quanto extensa, e pode-se ver tal evid\u00eancia. Devemos ter em mente, por\u00e9m, que, ao tratar de um acontecimento passado como o Dil\u00favio, estamos lidando com interpreta\u00e7\u00f5es e n\u00e3o com observa\u00e7\u00f5es diretas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eis algumas das caracter\u00edsticas das rochas que sugerem um dil\u00favio universal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1. Sedimentos marinhos sobre os continentes.<\/strong> No mundo, cerca da metade dos sedimentos sobre os continentes atuais veio do mar. Como \u00e9 que tanto material marinho se depositou sobre os continentes? Era de se esperar que ficasse no oceano. A distribui\u00e7\u00e3o extensa de oceanos sobre os continentes \u00e9 certamente uma situa\u00e7\u00e3o que difere de hoje \u2014 e ela \u00e9 coerente com a cren\u00e7a num dil\u00favio universal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2. Abundante atividade de \u00e1gua subterr\u00e2nea nos continentes. <\/strong>Evid\u00eancia disso \u00e9 percebida em grandes \u201cleques submarinhos\u201d antigos e outros dep\u00f3sitos submarinhos, como as turva\u00e7\u00f5es encontradas nos continentes. Turva\u00e7\u00f5es s\u00e3o aglomera\u00e7\u00f5es de rochas, limo, areia e part\u00edculas de argila depositadas em camadas debaixo d\u2019\u00e1gua. Estudos de turva\u00e7\u00f5es demonstraram que enormes dep\u00f3sitos de v\u00e1rios metros de espessura e cobrindo at\u00e9 100 mil quil\u00f4metros quadrados podem ser depositados no oceano em quest\u00e3o de horas depois de terremotos. Milhares de camadas de sedimento sobre os continentes, outrora considerados como tendo sido depositados atrav\u00e9s de longos per\u00edodos em \u00e1gua raza, agora s\u00e3o vistos como dep\u00f3sitos r\u00e1pidos de turva\u00e7\u00f5es, como se havia de esperar durante o dil\u00favio b\u00edblico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3. Distribui\u00e7\u00e3o ampla de sedimentos ex\u00f3ticos. <\/strong>Muitas camadas de sedimento ex\u00f3tico cobrem \u00e1reas t\u00e3o grandes que \u00e9 dif\u00edcil crer que foram depositados lentamente sob condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o-catastr\u00f3ficas. Por exemplo: no oeste dos Estados Unidos, o conglomerado de Shinarump, que tem uma espessura de 30 metros, cobre quase 250 mil quil\u00f4metros quadrados. A forma\u00e7\u00e3o Morrison, de 100 metros de espessura, que cont\u00e9m os restos de muitos dinossauros, se estende sobre mais de 1 milh\u00e3o de quil\u00f4metros quadrados, e o grupo Shinle, que encerra madeira petrificada, cobre 800 mil quil\u00f4metros quadrados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4. Aus\u00eancia de eros\u00e3o nas lacunas das camadas sedimentares. <\/strong>Freq\u00fcentemente h\u00e1 lacunas na seq\u00fc\u00eancia de camadas sedimentares de terra. Podemos identificar essas lacunas comparando-as com outras s\u00e9ries de camadas e f\u00f3sseis encontrados alhures. Ami\u00fade vastas camadas geol\u00f3gicas, datadas de uma \u00e9poca pela escala geol\u00f3gica padr\u00e3o, jazem sob uma outra considerada muito mais recente. Os estratos que representam o longo tempo que se admitiu entre as camadas, faltam em algumas localidades. Contudo, nessas lacunas as camadas inferiores mostram pouca evid\u00eancia de eros\u00e3o que certamente teria ocorrido se tivessem existido por muitos milh\u00f5es de anos. Com efeito, segundo a eros\u00e3o m\u00e9dia corrente, as camadas em quest\u00e3o \u2014 e muito mais \u2014 teriam sofrido eros\u00e3o nesse per\u00edodo de tempo. A falta de eros\u00e3o na maior parte destas lacunas sugere dep\u00f3sito r\u00e1pido, como havia de se esperar no caso de um dil\u00favio, quando havia pouco tempo para a eros\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5. Sistemas ecol\u00f3gicos incompletos.<\/strong> Em v\u00e1rios estratos que cont\u00eam f\u00f3sseis, tais como o arenito de Coconino, da regi\u00e3o do Grand Canyon, e a forma\u00e7\u00e3o Morrison, do oeste dos Estados Unidos, achamos boa evid\u00eancia de f\u00f3sseis de animais, mas pouca ou nenhuma evid\u00eancia de plantas. Os animais requereriam plantas como alimento. Contudo, poucas plantas foram encontradas no Morrison, que encerra restos de muitos dinossauros, e nenhuma planta foi encontrada no Coconino, com suas centenas de rastros de animais. Como poderiam os animais sobreviver durante milh\u00f5es de anos sem nutri\u00e7\u00e3o adequada?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sele\u00e7\u00e3o operada e a a\u00e7\u00e3o r\u00e1pida que se havia de esperar das \u00e1guas do Dil\u00favio parece ser uma explica\u00e7\u00e3o mais plaus\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"txtazulneg\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Bibliografia Adicional<\/strong><\/p>\n<p class=\"textoCinza\" style=\"text-align: justify;\">Sobre inunda\u00e7\u00f5es locais de rios da Mesopot\u00e2mia e a evid\u00eancia arqueol\u00f3gica, ver LLoyd R. Bailey, Noah: The Person and the Story in History and Tradition (Columbia: University of South Carolina, 1989), pp. 28-37.<\/p>\n<p class=\"textoCinza\" style=\"text-align: justify;\">Para a vers\u00e3o sum\u00e9ria, ver Thorkild Jacobsen, \u201cThe Eridu Genesis,\u201d Journal of Biblical Literature 100 (1981): 513-529.<\/p>\n<p class=\"textoCinza\" style=\"text-align: justify;\">Para a hist\u00f3ria do dil\u00favio na Babil\u00f4nia antiga, ver W. G. Lambert e A. R. Millard, Atra-hasis: The Babylonian Story of the Flood (Oxford: Clarendon, 1969).<\/p>\n<p class=\"textoCinza\" style=\"text-align: justify;\">Para a hist\u00f3ria do dil\u00favio neo-ass\u00edria, ver J. B. Pritchard, ed., Ancient Near Eastern Texts Relating to the Old Testament (Princeton: Princeton University, 1955), pp. 93-96.<\/p>\n<p class=\"textoCinza\" style=\"text-align: justify;\">Para a linguagem b\u00edblica quanto \u00e0 extens\u00e3o do Dil\u00favio, ver Gerhard F. Hasel, \u201cThe Biblical View of the Extent of the Flood,\u201d Origins 2 (1975), pp. 77-95.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"> Artigo publicado em <\/p>\n<p> <a href=\"http:\/\/dialogue.adventist.org\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-33\" src=\"https:\/\/filosofiadasorigens.org.br\/wp-content\/uploads\/sites\/12\/2010\/12\/dialogo.jpg\" border=\"0\" width=\"200\" height=\"62\" style=\"border: 0px none; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>William H. Shea (M.D., Loma Linda University; Ph.D., Universidade de Michigan) \u00e9 diretor-associado do Instituto de Pesquisa B\u00edblica na Associa\u00e7\u00e3o Geral. 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